quinta-feira, 30 de outubro de 2008

solidão


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Quando criança não vivia sem a minha boneca. Não podia perdê-la de vista. Não brincava, não almoçava, nem jantava sem tê-la por perto. Quando ia dormir, não deitava sem primeiro acomodá-la ao meu lado.

Cresci. E hoje eu percebo que, desde pequena, procurava companhia. Procurava colo, aconchego, estar-ter e cuidar de alguém. Agora, percebo-me sozinha. Absolutamente. Estranhamente – estranhando essa minha percepção. Minha boneca? Está guardada dentro de uma caixa dourada, amarrada com os laços grandes de uma fita vermelha. Está num cantinho do meu armário. Minha boneca: de pano, com seus quase 18 anos – e de face bonita e encardida. Revela-me só agora – Meu Deus! – um sorriso melancólico e estático, que não sustenta mais a minha solidão. A solidão dos meus 21 anos.

E continuo o meu caminho – o de todos nós: só.
Continuo. Sem minha boneca desta vez. Apenas sozinha – pacientemente e eternamente. E são somente meus: os seus sonhos, meu medo, meu amor e a minha paixão. Dividi-los com uma boneca de pano? Talvez. Mas ela poderia – apenas – me escutar. E escutaria?

os outros 4


Os outros 4 from tamás Bodolay on Vimeo.

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Pessoas circulam pela cidade e experimentam novas sensações.

Um vídeo de Mariana Coutinho, Bianca Spósito e Tamás Bodolay.
Edição de Tamás Bodolay

deixe me leve

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como traduzir esse coração?
como transgredir a sua essência?
passar desapercebida pela sua presença?
esquecer-me de tudo na sua ausência?

sua chegada
paralisa
dilata a minha paixão

sua presença
ronda-rodeia
ameaça ficar

como traduzir seu signo
os sinais do seu olhar?
O objetivo do seu corpo? - esse falar
calar?

como conhecer o objeto do seu coração?
por favor, faço não
revele-me essa tradução

não deixe rastros - embaraços
para derrubar meu coração

deixe em paz
fique - leve

entregue-me a solução
dê-me o seu coração

faça sim. assim. faça não
mas deixe leve. deixe-me-leve
fique leve

e revele-me a sua interpretação
do seu - e do meu coração.


Bhte, 10 de fevereiro de 2003
10:44h

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

bobagem

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"Minha beleza não é efêmera
Como o que eu vejo
Em bancas por aí
Minha natureza
É mais que estampa
É um belo samba
Que ainda está por vir...

Bobagem pouca
Besteira
Recíproca nula
A gente espera
Mero incidente
Corriqueiro
Ser mulher
A vida inteira..."

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

aparentemente




Amanhece mais um dia. A rua está vazia e parece um cenário da vida real. Os personagens surgem aos poucos e tudo acontece como os olhos já estão acostumados a observar. O silêncio é quebrado pelos primeiros movimentos da vida cotidiana dos moradores em seus apartamentos. Há um prédio residencial antigo... vários porteiros... as lojas: de aviamentos, revistas, chocolates, cadeiras de roda, sapatos, jóias, computadores, padaria, salão de beleza e papelaria. Os funcionários dos prédios e os donos das lojas acordam mais cedo para reafirmar que, naquela rua da capital mineira, está tudo em seu devido lugar. As portas da rua estão sendo abertas. É de manhã e tudo acontece, aparentemente, da mesma forma. Aparentemente: o mesmo andamento dos carros, os jornais sendo entregues à banca de revistas, a mesma melodia do encontro de diversos sons incessantes, o ritmo apressado das pessoas, a pulsação lenta e contraditória do andar dos idosos, a espera paciente e lenta das manicures por seus fregueses. O falar gritado e agudo da faxineira do prédio, o cochicho entre os donos de lojas, o bom humor fabricado pela pré-disposição do dono da mercearia.

Tudo acontece da mesma forma. Aparentemente. Crianças saindo e chegando das escolas, mães à procura de um consolo maior para os filhos, lavadores de carros trabalhando, adolescentes matando aula no bar da esquina. Os acontecimentos são fiéis aos olhares cotidianos. Olhar sem pausa para uma vida que segue na mesma pulsação. Olhar sem pausa. Olhar sem pressa. Olhar acostumado e contaminado. E as luzes do dia também são fiéis ao costume e à espera desses mesmos olhares. Luzes que anunciam, sempre da mesma forma, a chegada ritmada da manhã, o sol forte do meio dia, a lentidão do entardecer e o sossego da noite.

Para os olhares que criam um distanciamento, e conseguem observar o cenário daquela rua em seu silêncio, ficarão, inicialmente, as imagens construídas e sempre resgatas pelas pessoas dali. Imagens que oferecem a sensação de que tudo acontece da mesma forma. Aparentemente. Mas, no silêncio daquela rua, pode-se escutar um segundo ritmo do coração daquelas pessoas. São os seus sonhos, que nunca acontecem da mesma forma. Ritmo diferenciado de corações, muitas vezes, descompassados num apego ou desprendimento.

Tudo acontece da mesma forma. Aparentemente. Esses olhares sem pausa e sem pressa observam apenas – e pacientemente – a mesma aparência da vida cotidiana em uma só pulsação. Já o olhar em silêncio, é capaz de observar os sonhos e as modificações, e é sensível a novos ritmos e melodias. Um olhar que vai além da escuta corriqueira daquela rua, que consegue observar os movimentos suaves e as coisas invisíveis. Tudo acontece da mesma forma. Aparentemente. Mas basta uma sutil transformação do cenário: a falta de um personagem, a mudança do horário ou a alteração do ritmo de um sonho, que o olhar silencioso, esse que existe no centro da gente, torna-se sensível ao vazio intangível a qualquer forma acomodada, sem pausa e apressada de levar a vida.

amor de menina

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antes - durante - e depois de ter você
(meados de 2003)


antes eu dormia - apenas
hoje não mais
hoje eu espero
observo o silêncio
escuto o vazio
guardo o escuro
dentro
e fora
de mim

e me apago

anulo meu inconsciente
minha mente desmente
a sua presença
na minha noite

antes eu dormia - apenas
era tão fácil
e tão superficial
entrava numa dimensão
desconhecida do quarto
e no obscuro cansaço
do meus sonhos

com você na minha vida
eu aguardava a hora
de dormir
alimentava - te escutava
você estava

hoje - sozinha
eu vejo a parte escura
do dia chegar
e me encontro inteira
em todas as dimensões
palpáveis do meu quarto
já conhecidas por mim

demoro para adormecer
sinto o vazio
por ter
e não ter
você

hoje eu não durmo apenas - mais
hoje aguardo
escuto
observo
dentro
e fora
de mim

penso

sinto esse vão tangível
ardendo aqui dentro

só depois adormeço
e transporto para
meu despertar
a mesma saudade
de estar e não esperar.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008