domingo, 29 de março de 2009

estar só

Fecho-me em silêncio. Calo-me em saudade. Respiro na escuridão.

logo agora

Logo agora você me diz, então. .
está indo embora?
Logo agora que escrevemos o roteiro.
Criamos o cenário,
e descobrimos
uma nova maneira de reinventar a vida?

Logo agora que faltam três dias
para nosso ano começar?
Que jogamos todos os nossos pedidos
no mar?

Logo agora que o seu livro foi reeditado?
Que assinaram minha carteira.
Que sou capaz de andar sozinha?

Logo agora você então me diz. .

sexta-feira, 20 de março de 2009

gravidade

"no vôo umbilical
se agarra no cipó!
que a vida é uma só, cipó, se pá!

se pá! Eu chega lá
se pá, cipó
se pá, eu já pousei
pensei será
que vou me adaptar, quiçá, que só,
que sol que faz aqui!

eu pari pra ti um eu que eu censurei
ao dizer que o que eu sou, meu bem, nem sei
ou sei... mas não vou dizer."

(Gero Camilo)

saudade sensorial

Minha saudade de você é toda e inteiramente sensorial. Penso em escrever-te cartas, mensagens, postais. Penso em fazer para você fotos dos meus passos. Pensamentos. Vistas. Janelas. Mas não sei se o carteiro chegaria em boa hora. Pode ser que ele se atrase um pouquinho e você esteja se arrumando apressadamente para encontrar o seu novo amor. Pode ser que você esteja dormindo profundamente. Pode ser que o carteiro chegue adiantado e te pegue saindo para o trabalho à procura de concentração. Por isso calo-me. Registro meus gestos e minhas ações na escuridão da noite. Guardo cada pedaço de mim e da minha nova história para dividir com você em um outro tempo. Minha saudade é tanta e tão sensorial que sinto o cheiro de quando você sonhava. Sinto o gosto da textura. A dor do abraço. Penso em escrever-te poemas, músicas, versos. Escrever na areia um pedaço da nossa história. Mas ela já foi registrada. Guardada. Bem cuidada. Minha saudade de você é tanta e ainda assim, eu só vejo um pedido de fim. Fim? Tento tocar em vão aquela sensação contruída pelo nosso encontro. Nunca conseguirei tocar sem você. Penso em escrever-te tratados, contratos, pedidos, roteiros. Mas outra vez enxergo pausa. Pausa para que eu possa decorar meus textos. Pausa para que você não se desequilibre na corda bamba. Minha saudade é tanta que misturo boa parte do que fui e do que sou agora. Mesmo assim você está aqui, rezando para que nada de mal me aconteça. Então recolho minhas linhas, meus verbos, meus queros e toda minha invenção. Apago o endereço do postal para que o carteiro não chegue sem hora marcada: na escolha do vinho tinto. Na criação do projeto. No meio do jantar. Ah! Pausa. Por favor. Para que eu não me perca no trânsito. Não me afogue no mar. Não adormeça antes da hora. Mesmo assim. Minha saudade de você é tanta e tão sensorial que ainda sinto o sabor do seu folêgo. Sim, minha saudade de você é tanta que só tenho coragem de seguir.

quinta-feira, 19 de março de 2009

depois de muito tempo sem açúcar

Tenho acordado sempre antes das sete da manhã. Naturalmente. Quarto novo. Nova janela. Jardim. Rua nova. Novos vizinhos. Lanchonete. Café bem quente antes das oito da manhã. Suco de laranja. Melancia. Mamão. Abacaxi. - "Seu Aurélio, por favor, um pãozinho com queijo minas"! Queijo minas? Antes, para mim todos os queijos eram feitos em minas! Ando pelas ruas como se ninguém me notasse. E não notam! Não preciso dizer como foi o dia de ontem e como será o de amanhã. Incrível tocar este lugar! Quando chega a noite, as paredes e o o cheiro do meu novo quarto é o que me traz consolo. É por isso que tenho que agradecer sempre a Deus. O seu quarto me protege. Depois de muito tempo sem açúcar chego em casa à procura de algo um pouco mais doce. Lembro dele chegando em minha casa com um vinho nas mãos e eu debaixo do chuveiro. Depois de anos eu ainda não tinha perdido este costume! Não tinha como ser diferente. A taça entre o indicador e o polegar da mão esquerda tocava levemente seus lábios. Com um abraço me trouxe uma barra de chocolate! Deixei lacrada. Acomodada na bolsinho da mala. Sim. Depois de muito tempo sem açúcar lembro do presente que ele me deu. Amores e amigos se fazem presentes em pequenos gestos. Devoro o chocolate! Afinal, não tenho ainda com quem dividir. Talvez seja essa minha procura pelo afeto. Só pode ser. Doce. Chocolate. Vinho. Qualquer coisa que desloque o calor desta cidade para outro lugar. Se estou feliz? O que poderia dizer se ainda não sei andar pelas ruas desta cidade e ainda assim vou em frente numa velocidade que não me deixa olhar para os lados? Mas ainda assim, olho! Olho e me perco repetidas vezes. Nunca sem coragem. O que eu poderia dizer se aqui tudo é tão simples como o lugar de onde vim? Quando acordo consigo avistar os braços de quem abençoa esta cidade. Abençoa? Para sempre vou acreditar que sim. O que posso dizer se olho pra vida com olhos um pouco mais puros e nada, nada ingênuos? O que posso dizer se acredito absurdamente no meu trabalho exatamente por ser simples. Exatamente por ser sensível. O que posso dizer se sinto uma saudade inenarrável e ainda assim me mantenho diante da linha do horizonte? Às vezes acordo e demoro para entender onde estou. Mas sinto-me corajosa. Por estar aqui. Por amar quem eu amo de longe. Por acreditar e, posso confessar (?), por ter me colocado em risco e ter me jogado assim: de olhos bem abertos sabendo (!?) o que poderia vir a seguir.

me perder

"É difícil perder-se. É tão difícl que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo".


Clarice Lispector

quarta-feira, 18 de março de 2009

aqui do lado

...
pode ser então que esteja tudo errado
me disseram que o meu sono
merece ter na cama
um carinho aqui do lado!

vai desabar

"vai desabar água
algodão vai
desabar água

pra lavar o que tem que limpar
pra lavar o que tem
vai desabar água
e é pro nosso bem!"


Gero Camilo

terça-feira, 17 de março de 2009

coragem

.



"Calma, calma, também tudo não é assim escuridão e morte. Calma. Não é assim? Uma vez um menininho foi colher crisântemos perto da fonte, numa manhã de sol. Crisântemos? É, esses polpudos amarelos. Perto da fonte havia um rio escuro, dentro do rio havia um bicho medonho. Aí o menininho viu o crisântemo partido, falou ai, o pobrezinho está se quebrando todo, ai caiu dentro da fonte, ai vai andando pro rio, ai ai ai caiu no rio, eu vou rezar, ele vem até a margem, ai eu pego ele. Acontece que o bicho medonho estava espiando e pensou oi, o menininho vai pegar o crisântemo, oi que bom vai cair dentro da fonte, oi ainda não caiu, oi vem andando pela margem do rio, oi que bom vou matar a minha fome, oi é agora, eu vou rezar e o menininho vem pra boca. Oi veio. Mastigo, mastigo. Mas pensa, se você é o bicho medonho, você só tem que esperar menininhos nas margens do teu rio e devorá-los, se você é o crisântemos polpudo e amarelo, você só pode esperar ser colhido, se você é o menininho, você tem que ir sempre à procura do crisântemo e correr o risco. De ser devorado".

Hilda Hilst

quinta-feira, 12 de março de 2009



"O meu mundo acabou de atingir a perfeição, a meia-noite é também meio-dia. A dor é também um prazer, a maldição é também uma benção, a noite é também um sol; ide embora daqui, senão aprendereis: um sábio é também um louco. Dissestes sim, algum dia, a um prazer? Ó meus amigos, então dissestes, também, a todo sofrimento. Todas as coisas acham-se encadeadas, entrelaçadas, enlaçadas pelo amor. E se quisestes, algum dia, duas vezes o que houve uma vez, se dissestes, algum dia:"gosto de ti felicidade! Volte depressa, momento!", então quisestes a volta de tudo. Tudo de novo, tudo eternamente, tudo encadeado, entrelaçado, enlaçado pelo amor, então, amastes o mundo. Ó vos, seres eternos, o amais eternamente e para todo o sempre; e também vós dizeis ao sofrimento: "Passa, momento, mas volta!". Pois quer todo o prazer_eternidade!"

Nietzsche (Assim falou Zaratustra)

terça-feira, 10 de março de 2009

o mundo e seu amor



"Um
Foi grande o meu amor
Não sei o que me deu
Quem inventou fui eu
Fiz de você o Sol
Da noite primordial
E o mundo fora nós
Se resumia a tédio e pó
Quando em você tudo se complicou

Dois
Se você quer amar
Não basta um só amor
Não sei como explicar
Um só sempre é demais
Pra seres como nós
Sujeitos a jogar
As fichas todas de uma vez
Sem temer, naufragar

Não há lugar pra lamúrias
Essas não caem bem
Não há lugar pra calunias
Mas por que não
Nos reinventar

Três
Eu quero tudo que há
O mundo e seu amor
Não quero ter que optar
Quero poder partir
Quero poder ficar
Poder fantasiar
Sem nexo e em qualquer lugar
Com seu sexo junto ao mar.."

terça-feira, 3 de março de 2009

antes de ir embora

há um tanto em mim que teme
outro tanto desabrocha
é difícil entender-se só
este ser inteiro e único

sim.
há um tanto em mim que teme
outra parte se joga
sem limites,
pega a estrada a qualquer hora da tarde
ou da madrugada
só para olhar o tamanho infinito ....................... da linha do horizonte.
lembra?

ir embora assim:
sem olhar pra trás!

mas, olha,
aqui eu confesso:
ainda procuro seus olhos antes de partir.

e por que você não vem comigo?