A casa está decorada. Todas as paredes pintadas. Cortinas escorregando no vento. Mesa com livros, cds, vinis, velas e caixas de fósforos. Fogo. Tensão. Ventilador parado. E o inverno invadindo o Leblon. Já se passou um ano. O quadro na parede da sala de estar. A parede descascada pelo tempo e pela arte. Toca a campainha. Não tem ninguém lá fora. Abro e fecho a porta. Estou cega para ver? O vento continua insistindo em fazer a cortina rodopiar no espaço. O movimento pede para que o espaço respire. Meu coração apegado leva a memória para o tempo passado. Todos os anéis da mão esquerda guardados. E o barulho na porta insiste em entrar. Não vejo ninguém lá fora. Meus olhos acostumados com todas as referências me fazem acreditar num único movimento cotidiano da vida neste lugar. A campainha. O interfone. A carta chegando pelo correio. O vento na cortina. Alguma coisa quer me tirar deste lugar. O novo rompe o meu costume de ser. Insiste em entrar. E eu dou as costas. Saio correndo. Volto para o centro da casa. Medo ou acomodação? Quem dera fazer de novo 28 anos e deixar tudo para trás. Abro a janela e jogo tudo pelos ares. As cortinas dançam no espaço. Os livros pedem para serem lidos. A maternidade pulsando. O trabalho embebido pela urgência e disciplina. A saudade instaurada no ar. E o novo insiste em entrar. Provocante. Desafiador. Desconhecido. Estranho. Ele me dá um soco na cara. Não há mais nada que eu possa fazer. Já é tempo de trocar as fechaduras. Abandonar o que era antes e não é mais agora. Escancaro a porta. Quebro o vidro da janela. O Dois Irmãos intactos. E o fabuloso universo mágico do Leblon. Acho graça ou ironia? Já está na hora de ver o sol nascer mais uma vez.