Um sequestro numa noite. Um incêndio no outro dia. E o que virá depois? Uma criança que brinca com os pés descalços na praia com o pai. Uma senhora na cadeira de rodas que não tem onde dormir. O sono que chega devagarinho. E qualquer outra tragédia ou sorriso ou abandono ou encontro inerente a qualquer ser vivo. Estes contornos exuberantes desta cidade nos fazem esquecer que a vida é dura, ah sim, se quisermos, podemos sim nos esquecer. Mas o risco existe e nos esfrega na cara todos os dias que tudo e qualquer coisa pode acontecer. Já não é tempo mais de perder o ônibus, a passagem, o abraço, o horário, o trabalho, o amor. Já não há mais tempo no mundo para perdermos tempo com nada que não nos interesse, nos acrescente, nos atravesse, nos encharque de beleza e alegria. Porque precisamos disso pra viver. Precisamos deste sopro de vida, deste encantamento diário para driblar as horas, ah, as inevitáveis horas, do fim, em que não haverá mais nada que possamos fazer.
*Aos moradores do Leblon que perderam suas vidas no incêndio do dia 3 de março de 2013.