(colagem de textos)
É dia. Fim de tarde. Ela não consegue ver a cor do céu. A chuva cai forte. Janelas fechadas. Ruas vazias. A menina estende a mão direita e conta – “1, 2, 3, 4”! Faltam quatro dias para uma nova contagem de tempo. Pés descalços. Anda de um lado para o outro. O ano vai começar mais uma vez. A chuva lá fora cai ainda mais forte. A menina não tem mais vontade de sair pelas ruas. Não agora. Não sozinha. Ela ficou presa. Mas não sabe como. Não sabe por quê.
Então ela começa a se lembrar: quando criança não vivia sem a sua boneca. Não podia perdê-la de vista. Não brincava, não almoçava, nem jantava sem tê-la por perto. Quando ia dormir, não deitava sem primeiro acomodá-la ao seu lado.
- “Cresci. E hoje eu percebo que, desde pequena, procurava companhia. Procurava colo, aconchego, estar-ter e cuidar de alguém. Agora, percebo-me sozinha – estranhando essa minha percepção”.
Sua boneca? Está guardada dentro de uma caixa dourada, amarrada com os laços grandes de uma fita vermelha. Está num cantinho do seu armário. Sua boneca: de pano, com seus quase 18 anos. De face bonita e encardida. Revela só agora – “Meu Deus!”, um sorriso melancólico e estático, que não sustenta mais a sua solidão.
A menina continua com as janelas fechadas. Continua o seu caminho – o de todos nós: só. Continua. Sem a sua boneca desta vez. São somente seus: seus sonhos. Seus medos. Dividi-los com uma boneca de pano? Talvez. Mas ela poderia apenas escutar. – “Escutaria?”
Sim. As janelas continuam fechadas. Lá fora, chuva. Ela estende a mão mais uma vez e conta –“ 1, 2, 3”! Nesta hora ela olha através do vidro da janela. Do outro lado, os olhos de uma senhora que passa pela rua, debaixo da chuva. Pela primeira vez, a menina quis ter a coragem de abrir uma pequena fresta da janela.
(...)
Ela abre.
(...)