quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

brincando de escorregar no céu







Mariana Coutinho, Sara Antunes, Júnior Paixão, Menote Cordeiro.
Mirante, Belo Horizonte - MG.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

cinema

"SOBRE O RESTO DOS DIAS", curta-metragem de Alexandre Baxter e Luiz Felipe Fernandes na 14a Mostra de Cinema de Tiradentes, 2011.



Com Alexandre Cioletti, Mariana Coutinho e Carolina Corrêa.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

farsa

Abri a porta e com olhos transparentes vi que tudo era cenário. "Mas era tão real!", pensei, agora com meus olhos assustados. "Feche esta porta!", gritou a velhinha que passava carregando seus anos pela rua afora. "Não escolha esta vida pra você", completou ofegante. Agora, caro leitor, me responda: quem aqui sabe diferenciar sonho de realidade num mundo tão sedutor?

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

imaginário

Você assina o meu nome na sua lista de amores. Faço e refaço meus segredos. Compartilho todos eles com você até transformá-los. Recodifico minhas histórias. Mudo meu ponto de vista. Tudo se mistura dentro de mim. Ao seu lado. E assim sendo, nunca mais volto pro lugar de antes. Permaneço: em transformação. Rendo-me. Por medo. Arrependo-me. Mas volto. Você assina o meu nome da sua lista de amores. Assina meu nome em cartas que nunca escrevi. Convida minha vida pra entrar na sua. Convites desejados e imaginários de casamento. Pra quem? Pra ela? Pra você? Pra mim! Desisto de desistir de tudo. Pronto! Já preciso de você. Você disfarça toda a minha loucura. Compartilha arduamente o silêncio. O sonho. O sono. A dor. Afinal, somos tão diferentes assim? Reconheço-me em você. Procuro de novo e desesperadamente saber como é estar só e em paz. Nada mais de solidão. Amor não acaba. O amor não acabou. Não sabia que seria assim. Ficar nunca sem você. Este seu jeito bonito de amar que não termina. Que sequer determina a hora de parar. Sim. Você assina o meu nome na sua lista de amores, em suas cartas em branco, e sem me consultar convida a todos para entrar. Pensei que tivesse deixado a porta trancada. Perdi a chave de casa. O horário. A fome. Sem saber muito como voltar, deixei pra você uma cópia de todos os meus segredos. Aqui fora dá pra ver a janela escancarada e a luz do abajur acesa. Deve estar na hora de acordar.

Phoenix Lisztomania Brat Pack Mashup Belo Horizonte from Bubble Trouble on Vimeo.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

sábado, 9 de outubro de 2010

estrada

Enquanto ele olha pra estrada, eu olho para o céu. Ele segue e deixa meu céu em movimento. O amor é assim. Você segue rumo à sua história e movimenta o horizonte do outro.

domingo, 26 de setembro de 2010

sábado, 11 de setembro de 2010

janela aberta

Outro dia deixei a porta de casa aberta. Achei que assim a textura do ar modificaria. Meu olhar diante do mundo se ajustaria. E meus dias se transformariam em festa. Com este ar extremamente oxigenado desta cidade ninguém gosta de ficar sozinho. Eu gosto. Mas às vezes não me dou descanso. Insisto vez ou outra em deixar a porta aberta. E eles chegaram. Assim. Sim. Sempre pedindo licença. Sorriso de quem gosta e educação de quem quer ficar. Trocamos as cores da sala. Comentamos sobre as músicas de cada repertório particular. Falamos sobre projetos. Sonhos. Confessamos discretamente, cada um de nós, como é difícil andar nas ruas cheias desta cidade. Ai. Aqui, sentados no chão. Cinzeiros cheios de angústias. Taças cheias de vinho. Amanhecer ao lado de um amigo nunca é tarde demais. Mas com o passar dos dias, aqui, nesta cidade daqui, eu descobri que a porta nunca deve ficar aberta. Não. Sorriso e boa educação não mostram quem é amigo, ou não. Por favor, me escute! A porta deve estar sempre trancada. Para que aqueles, estes do lado de cá, que compartilham os mesmos tons, possam bater assim: devagarzinho. É tão simples. Assim. A porta de casa deve estar sempre trancada. Para que os anjos, ah sim, os anjos, possam entrar pela nossa janela.

Texto dedicado à Sara Antunes.

sábado, 4 de setembro de 2010

Sobre os saltos e as quedas

Hoje, embaralho-me entre sons e movimentos desta cidade e tento encontrar meu lugardentro desta construção. Construo junto. Dilato minhas opiniões e pensamentos. Guardo. Retiro-me. Saio de cena. Às vezes observo. Outras, me fecho. Mas volto. E aí sem nenhuma explicação maior que a própria vida e suaurgência, subo no lugar mais alto e me jogo lá de cima. Meu pensamento recorreàs memórias e é isso que me mantém ali, de braços abertos sobre uma base móvel. Não há nada para me agarrar. Fico ali e me preparo entre alguns segundos parame jogar. Não fosse o abraço de quem hoje está perto, o chão seria o meuprimeiro contato. Ao contrário disso, CAIO macio, suave. Olhamos para tudo comolhos de risco. E é dentro desse limiar que construímos a nossa história.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Grace Passô nos palcos Cariocas!



Com direção de Luiz Fernando Marques e dramaturgia de Grace Passô, o espetáculo MARCHA PARA ZENTURO é a materialização do encontro artístico entre as duas companhias: Espanca! E Grupo XIX de Teatro.

"O que acontece quando cinco amigos, que eram inseparáveis, se encontram? Na peça Marcha para Zenturo, atores do Grupo XIX de teatro (SP) e do Espanca! (BH) contam a estória de um reencontro, em uma festa de Ano Novo, onde dividem suas lembranças e refletem sobre o tempo: como eram, o que desejaram ser, o que se tornaram e o que serão. O texto da mineira Grace Passô, com direção do paulista Luiz Fernando Marques, surgiu de um processo coletivo entre as duas companhias e foi apresentada no Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto. A primeira temporada no Brasil será no Rio de Janeiro, no Mezanino do Espaço SESC, e estreia no dia 3 setembro, às 21h30.

No segundo semestre do ano de 2007, o Grupo XIX de Teatro e a Companhia Brasileira de Teatro de Curitiba (PR) foram convidados para participar do Acto I, encontro de Teatro promovido pelo Espanca!, com o intuito de criar bases para que essas companhias se encontrassem numa sala de ensaio. Este projeto tinha como objetivo a criação de um espaço para intercâmbio, discussão e reflexão sobre razões artísticas que movem esses coletivos. No ano seguinte, o Grupo XIX de Teatro convidou a companhia mineira para participar do projeto “ProXImidadeX”, contemplado pela lei de Fomento para a cidade de São Paulo. Dessa vez, o resultado do projeto criativo não seria mais fruto de um trabalho independente, mas de um terceiro trabalho, híbrido, sem hierarquias e feito do desejo de transformar-se a partir do encontro com o outro".

Marcha para Zenturo tem patrocínio da PETROBRAS, que contemplou o Grupo XIX no edital de 2007-2008, o primeiro para manutenção de companhias da Estatal.

O GRUPO ESPANCA!

Sediado em Belo Horizonte (MG), o Espanca! foi fundado em 2004 e desde então produz trabalhos ancorados na busca por uma arte contemporânea que reavalie a ética e conceitualmente sua linguagem. Com os espetáculos “Por Elise”, “Amores Surdos” e “Congresso Internacional do Medo” o grupo criou um repertório de textos originais escritos por Grace Passô em que o homem é retratado do ponto de vista do afeto. A trilogia revê códigos do acontecimento teatral, que busca construir uma arte de gênero híbrido com peças que não são somente trágicas ou cômicas, mas que procuram representar o homem sem reduções facilitadoras de sua condição.

O primeiro trabalho, “Por Elise”, com direção e texto de Grace Passô, estreou em 2005, na Mostra Paralela do 14º Festival de Teatro de Curitiba. Dentre os Prêmios que recebeu estão o APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) e o Shell de Melhor Autor 2005, e o Prêmio Sesc-Sated MG 2006 de Melhor Espetáculo e Texto. O segundo, “Amores Surdos”, dirigido por Rita Clemente e com texto de Grace Passô, teve seu projeto de criação vencedor do Prêmio Estímulo às Artes – Auxílio Montagem – da Fundação Clóvis Salgado/Palácio das Artes. A peça foi indicada aos Prêmios Qualidade Brasil SP (em todas as categorias do Teatro Adulto), Prêmio Shell SP 2008 (categorias de melhor texto, direção e cenário), e foi vencedora do Prêmio Usiminas-Simparc, nas categorias de Melhor Atriz e Texto. “Congresso Internacional do Medo” estreou em 2008 e teve seu projeto de criação vencedor do II Projeto de Co-Criação do Núcleo dos Festivais Internacionais de Artes Cênicas do Brasil.

Recentemente a companhia teve seu projeto de manutenção aprovado no Programa Petrobrás Cultural, que viabilizará uma série de ações do grupo na cidade de Belo Horizonte.

O GRUPO XIX DE TEATRO

O grupo XIX de teatro tem um trabalho contínuo de oito anos, com uma pesquisa temática voltada para a história brasileira, que envolve a exploração de prédios históricos como espaços cênicos e uma investigação sobre a participação ativa do público.

Com sua primeira peça, “Hysteria”, o grupo ganhou cinco prêmios, foi considerado a revelação teatral pela APCA, além de ter sido indicado para o Prêmio Shell de Teatro. Realizou mais de 370 apresentações em 25 cidades brasileiras e 14 cidades no exterior (Europa: Portugal, França e Inglaterra; África: Cabo Verde).

“Hygiene”, a segunda peça do grupo, é resultado de “A Residência”, um dos 12 projetos contemplados pela Lei de Fomento de Teatro para a Cidade de São Paulo (Jan/2004) que consiste em um trabalho sociocultural de residência artística na Vila Operária Maria Zélia, na qual o grupo estreou em março de 2005. Por esta peça o grupo foi indicado ao prêmio Shell de Teatro - 2005 e ao Prêmio Bravo! Prime de Cultura como um dos três melhores espetáculos do ano e foi premiado como melhor espetáculo do ano pelo Prêmio Qualidade Brasil 2005 – São Paulo. O espetáculo realizou mais de 100 apresentações em 11 cidades brasileiras.

“Arrufos”, a terceira peça do grupo, estreou em fevereiro de 2008 e foi criada com recursos do PAC da Secretaria Estadual de Cultura de São Paulo e da ASSAOC - Oficina Cultural Oswald de Andrade. Esta peça rendeu ao grupo o prêmio APCA 2008 (direção), o prêmio Shell de teatro 2008 (cenário), Prêmio Cooperativa Paulista de Teatro 2008 (Projeto Visual), além das indicações ao prêmio Shell de teatro 2008 (categoria especial), Prêmio Cooperativa Paulista de Teatro 2008 (Direção, Trabalho em espaço não-convencional), Prêmio Bravo! Prime de Cultura 2008 (melhor espetáculo). A peça cumpriu seis meses de temporada na Vila Maria Zélia em São Paulo e em 2009 viajou para Belo Horizonte (MG), por três cidades do Estado de São Paulo por meio do projeto PAC – Circulação e Rio de Janeiro (2010) para o Tempo Festival.

Desde 2008, o grupo conta com o patrocínio da Petrobrás para dar continuidade aos projetos da companhia que incluem a residência artística na Vila Maria Zélia, a temporada de repertório com “Hysteria”, “Hygiene” e “Arrufos” e os Núcleos de Pesquisa.

FICHA TÉCNICA

Direção: Luiz Fernando Marques
Dramaturgia: Grace Passô
Direção de Arte: Grupo XIX de Teatro e Espanca!
Elenco: Janaina Leite, Juliana Sanches, Paulo Celestino, Rodolfo Amorim, Ronaldo
Serruya, Gustavo Bones, Grace Passô, Marcelo Castro
Iluminação: Guilherme Bonfanti
Projeto áudio-visual: Pablo Lobato
Treinamento de viewpoints: Miriam Rinaldi
Oficina de interpretação: Ana Lúcia Torre
Coordenação do Projeto Co-Habitação: Paulo Mattos
Produção Executiva do Projeto Co-Habitação: Mayara Sartori
Produção do grupo Espanca!: Aline Vila Real
Assistente de ensaio: Thiago Wieser
Projeto Gráfico: Curau Estúdio de Criação
Marcha para Zenturo

Estreia 3 de setembro, às 21h30
Até 26 de setembro
Sexta e sábado, às 21h30. Domingo, às 20h
Mezanino do Espaço SESC
Rua Domingos Ferreira 160, Copacabana
Tel.: (21) 2547-0156
Capacidade: 100 lugares
Bilheteria: de terça a domingo, a partir das 15h
Vendas antecipadas até 19h
Classificação etária: 14 anos
Duração: 100 min
Ingressos: R$16 (inteira) R$8 (meia) R$4 (comerciários)

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

The Dreamers



Nós corremos. Saímos de cena. E tentamos nos reinventar! Para voltar outra vez. Começar uma outra vez. Tem sido assim todos os dias quando chega a noite. Saímos de cena durante o nosso sono. Para sonhar. Ou, para os mais pragmáticos, apenas para descansar. Nesta pausa noturna tentamos, ainda que inconscientes, nos reinventar. Reinventar nosso fôlego. Nossas células. Nossa força. Força da vontade. Um sorriso novo. Um plano inédito. Outra meta. Um novo questionamento que nos coloque em risco. Sim! Para entrar outra vez em cena. A cena do nosso novo dia. Que começa no quarto. Passa pela porta. Pela cozinha. Pela sala de estar. Pelo abraço da mãe. Do filho. A rua. O escritório. A sala de ensaio. Ahn? Temos tempo para ensaiar esta nossa trajetória? Temos? Tempo? Qual o percurso dos seus dias? Dos nossos dias? O meu tem sido bastante silencioso nesta minha despedida dos meus (nossa!) vinte anos! Penso em todas as coisas que ainda quero aprender e não quero deixar de fazer ainda nesta existência. E também em todas as outras coisas que já deixaram de ser tão importantes assim. Nós corremos. Saímos de cena e tentamos nos reinventar. Para começar uma outra vez. Todos os dias. Todos os anos... e então eu penso que... , ah! Eu só penso. Que... um outro. Outro dia, talvez?! Possamos...




Na foto: Frank Borges. Mariana Coutinho. Sara Antunes.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Cena colorida...

meu nome é Negrinha...

Convite de Sara Antunes: AMANHÃ, NEGRINHA para celebrar a ocasião, como oferenda, teremos na Casa da Gávea as 22h um recital-brinde com canções negras e poesias da Negra Anastácia, as cantoras e atrizes especiais Mariella Santiago, Ava Rocha, Vanessa Gerbelli, Clarisse Derziê, Thais Mori, Analu Prestes... darão a voz, o som e a batida. Mulheres poderosas. Brindaremos com acarajé! Será logo depois da peça. Quem puder apareça! A temporada está começando...

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

o coração diz... parado!


"Um trem-de-ferro é uma coisa mecânica,
mas atravessa a noite, a madrugada, o dia,
atravessou minha vida,
virou só sentimento"

sábado, 14 de agosto de 2010

costume de ser

Como continuar sendo se o que tenho costume de ser vai deixando aos poucos de caber dentro de mim? Como ser se meus olhos me acompanham, mas meus pés traçam limites na minha maneira de existir? Nesta hora saio do meu corpo. Sinto urgência de abandonar os meus desejos. Confesso: eu não caibo dentro de mim.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

nem muito. nem pouco. por inteiro.

travessia

Menina, não atropele. O coração é seu. Tem medo? Eu tenho. De atravessar a rua. Caio. Me espera? Levanto. Salto! Começo a correr. Vôo? Olhe para meus olhos aqui de cima. E caia! Dentro de mim há todo o tempo do mundo. Mudo. Transformo. O modo. A caminhada. Menina, não! Atropele meu coração. Tenho medo de pegar estrada à noite. Adoro andar com os faróis do carro apagados. Abro a janela. Deixo a lua crescer. Ser. Cresço. Desde criança. Até um adulto pode escutar. Escuta! Olha! Eu tenho medo de atravessar a rua. Veja, a rua mudou de mão. Me dá a mão? Atenção. Tenho medo de atravessar a rua. Menina, não. Menina, atropele. O tempo não tem senão(s). Aaahhhh... menina, atropele o meu coração!

carta aos atores

"Carta aos atores: O que, o quê? Por que se é ator, hein? Se é ator quem não consegue se habituar a viver no corpo imposto, no sexo imposto. Cada corpo do ator é uma ameaça, a ser levada a sério, para a ordem ditada ao corpo, para o estado sexuado; e se um dia a gente está no teatro, é porque tem algo que a gente não suporta. Existe em cada ator algo como um corpo novo que quer falar. Uma outra economia do corpo que avança, que empurra a antiga, imposta". Valère Novarina.

Hóspedes do Tempo











FESTIVAIS: 11º Festival de Cenas Curtas do Galpão Cine Horto e Festival de Esquestes de Niterói 2010 - melhor cena, direção e texto.


Quanto tempo falta? O que ainda é preciso (possível) fazer? Ela está em toda parte lembrando que somos todos, apenas, hóspedes do tempo.

EM CENA: Fernando Lopes, Márcio Vesolli, Mariana Coutinho, Vanessa Jardim
DIREÇÃO: Renato Farias
DIREÇÃO DE MOVIMENTOS: Márcio Vesolli
DIREÇÃO MUSICAL: Beto Militani
DIREÇÃO DE ARTE: Thiago Mendonça e Carol Freitas
DRAMATURGIA: Tarcísio Lara Puiati
COLABORAÇÃO: Gisele Werneck

Donka - FIT-BH 2010

Donka – Uma carta a Tchekhov
Teatro Sunil - Suíça



Teatro-Circo, Duração: 02:00, Classificação: Livre
Direção: Daniele Finzi Pasca
Elenco: Moira Albertalli, Karen Bernal, Helena Bittencourt, Sara Calvanelli, Veronica Melis, David Menes, Beatriz Sayad, Rolando Tarquini.

Sinopse
“Donka - Uma carta a Tchekhov” é resultado da parceria entre o grupo suíço Teatro Sunil e o The Chekhov International Theatre Festival de Moscou. Pela primeira vez no Brasil, trata-se de uma poética homenagem ao dramaturgo russo. O espetáculo usa imagens, números de equilibrismo, dança, acrobacias e brincadeiras para invadir a vida de Tchekhov, revelando, assim, seus pensamentos, anotações e transformando em corpo e formas seus famosos e enigmáticos silêncios. Ao assistir Donka, o espectador terá a oportunidade de ver objetos suspensos numa trágica fragilidade que vai, aos poucos, desaparecendo.

Teatro Sunil e The Chekhov International Theatre Festival.

O Teatro Sunil foi fundado em Lugano, Suíça, em 1983, por Daniele Finzi Pasca. O ator e bailarino tragicômico e seu universo são os componentes centrais das criações desta companhia que, com sua tradição, propõe uma visão particular do universo clownesco: personagens e histórias épicas unidas à simplicidade de uma linguagem universal. O grupo já apresentou suas criações de teatro e dança em mais de 20 países. Já o The Chekhov Internacional Theatre Festival foi criado em Moscou, Rússia, em 1992 pela International Confederation of Theatre Associations. Desde então, tornou-se um espaço de encontro e trocas de experiências, focado nas contribuições de grandes nomes do teatro, como Peter Brook, Giorgio Strehler, Peter Stein, Otoмar Krejca, entre outros.
Saiba mais sobre o Teatro Sunil.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

pequenas epifanias

(in: Pequenas Epifanias)
Caio Fernando Abreu



Dois ou três almoços, uns silêncios.
Fragmentos disso que chamamos de “minha vida”


Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus — enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.

Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de “minha vida”. Outros fragmentos, daquela “outra vida”. De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.

Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mau me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.

Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector — Tentação — na cabeça estonteada de encanto: “Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível”. Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.

De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.

Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.

Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.

O Estado de S. Paulo, 22/4/1986

é preciso fazer um esforço enorme para ser livre...

terça-feira, 20 de julho de 2010

Hiato

"Se a gente nunca mais se encontrar ainda assim vamos nos encontrar. Quando olharmos para o céu. Para o céu pálido que você inventou com sua carta que me deu. O nosso céu. Nós nos escreveremos, já que não podemos falar. Sejá lá o que impede você de falar."

Hiato from CCLULP on Vimeo.



Curta-metragem de Rodrigo Bittencourt baseado nos Escritos Íntimos, de Claudio Ulpiano.

Roteiro, Produção e Direção: Rodrigo Bittencourt
Atores: Kiko Mascarenhas e Nanda Costa
Fotografia: Bruno Prada
Piano: Sacha Amback – 1º movimento da “Sonata ao Luar” de Bethoveen.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Festival Intercâmbio de Linguagens


A programação do Festival Intercâmbio de Linguagens chega à oitava edição. Neste ano são 22 espetáculos de companhias francesas, franco-alemãs, argentinas, cariocas, paulistas e cearenses espalhados por seis palcos do Rio de Janeiro. O FIL traz aos palcos da cidade encenações de peças infantis, musical, teatro do objeto, de bonecos e clown.

Confira o site oficial: http://www.fil.art.br

uma noite qualquer

BH, uma noite qualquer em 2006


Acordo.
Segunda-feira.
Água. Água. Água.
Adoro água quando acordo. Água no rosto. No corpo. Nos olhos fechados. Água na boca. A letra daquele samba ainda está na cabeça. Vontade de tomar suco de laranja na taça.

Esqueço. Contas a pagar. Carta no correio. Ainda tenho vontade de chorar. O sol está forte. Café quente. Trânsito. Trabalho. Almoço. Pauta. Água. Computador. Engarrafamento. Escuto durante uma hora aquele cd dentro do carro.

Estou livre. LiVRE. LIVRE.

Vou para faculdade. Penso na aula de amanhã. Volto pra casa. Resenha pela madrugada. O telefone não vai tocar. Não desta vez. Eu? Sozinha. Não penso em ligar para ninguém. Não mais. Não desta vez. Escuto o silêncio. Esse vão tangível ardendo aqui dentro. Espero o tempo passar. Gasto horas no chuveiro. Quente. À noite gosto de água quente. Ando de calcinha pela casa com a certeza de que não experimentei todos os prazeres do mundo. Imagino. Penso. Gosto e gasto palavras lascivas no papel. Registro. Leio um email. Seguro a xícara de café. Quente. Espero um novo amor chegar. Novinho em folha. Mas bem que ele podia voltar numa hora em que meu coração não estivesse transbordando em mágoas. Bem que ele podia chegar naquela noite quente, quando a vontade de chorar terá passado. Passado? As rosas ainda intactas no jarro de água com gelo. Presente. O vinho guardado. Para o futuro. E eu neste momento andando de calcinha pela casa. Sozinha. Será que haveria um perdão para este coração? Abro a janela e imagino de que forma amanhecerá o dia. Tento adivinhar o seu gosto quando acorda. Imagino a textura do seu corpo durante a noite. Lembro da barba mal feita e sinto saudade. Não sei como é. Não sei como e de qual forma poderia ser. Ainda não sei o seu nome. Ando pela casa sozinha, agora, com uma garrafa de água na mão. Não quero outro gosto feminino além do meu. Seria possível? Imagino, então, como poderia ser o seu desejo da forma mais leve e densa. Será que tem jeito? Não sei. Volto pro computador. Resenha pela madrugada. Janela aberta. Teorias sobre cinema. Telefone mudo. Sei que será assim por muito tempo. Não quero mais. Estou livre. Não espero mais. Durmo sozinha na cama grande. Brinco com os meus sonhos. Continuo. Luz apagada. Três laudas bem escritas em cima da mesa. Companhia única e doce da Mel. E eu deitada na cama, esperando. O sono chegar.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

de dentro do ônibus

Estava sentada no ônibus e de repente uma percepção me assustou. Comecei a observar as pessoas que passavam pela roleta e pensei: - "eu nunca antes vi nenhuma delas!" Mas que susto, Meu Deus! Nenhuma delas! A todo instante eu vejo novas pessoas. E, ao mesmo tempo, sinto tê-las ao alcance de meus conhecimentos. Sinto já tê-las escutado e tocado. Não preciso delas. Ainda não. Dentro dali elas são apenas passageiras. Mas se ficarem por muito tempo farão falta. Deixarão vazio. E logo vão embora. Se eu continuar, chegarão outras e outras mais. Se eu olhar pela janela do ônibus, elas também estarão lá fora correndo atrás de um tempo que não perdoa. Elas estão por toda a parte e eu não as conheço. São como eu: são amigas, caridosas, carentes, criminosas, egoístas, generosas. São de todos os tipos e se misturam como se fossem cores. Eu não posso mais ficar parada, sentada ali. Alguém que conheço faz tempo, me espera em algum lugar e nem acredita quando eu chego em casa. Embora eu sinta que conheça todos, não conheço. Sei que preciso conhecê-los e desejar a todos, felicidades. Eles são interessantes. Mas são muitos. Isso me assusta: somos muitos. Então eu puxo a cordinha e desço correndo do ônibus para encontrar quem me conhece e espera por mim.

Belo Horizonte, 2001.

domingo, 4 de julho de 2010

adormecer

Neste momento ele adormeceu. Caiu no sono. Percebe? Ver alguém dormindo é testemunhar seu momento mais frágil. Mais vúlnerável e entregue ao deslocar do tempo da vida.

aqui em mim, infernofogo amordetarde. E a vida toda em surpresas. Ou se morre ou se dura muito.

Assis Benevenuto

pálpebras de neblina

Fim de tarde. Dia banal, terça, quarta-feira. Eu estava me sentindo muito triste. Você pode dizer que isso tem sido freqüente demais, ou até um pouco (ou muito) chato. Mas, que se há de fazer, se eu estava mesmo muito triste? Tristeza-garoa, fininha, cortante, persistente, com alguns relâmpagos de catástrofe futura. Projeções: e amanhã, e depois? e trabalho, amor, moradia? o que vai acontecer? Típico pensamento-nada-a-ver: sossega, o que vai acontecer acontecerá. Relaxa, baby, e flui: barquinho na correnteza, Deus dará. Essas coisas meio piegas, meio burras, eu vinha pensando naquele dia. Resolvi andar. Andar e olhar. Sem pensar, só olhar: caras, fachadas, vitrinas, automóveis, nuvens, anjos bandidos, fadas piradas, descargas de monóxido de carbono. Da praça Roosevelt, fui subindo pela Augusta, enquanto lembrava uns versos de Cecília Meireles, dos Cânticos: "Não digas 'Eu sofro'. Que é que dentro de ti és tu? / Que foi que te ensinaram/ que era sofrer ?" Mas não conseguia parar. Surdo a qualquer zen-budismo, o coração doía sintonizado com o espinho. Melodrama: nem amor, nem trabalho, nem família, quem sabe nem moradia - coração achando feio o não-ter. Abandono de fera ferida, bolero radical. Última das criaturas, surto de lucidez impiedosa da Big Loira de Dorothy Parker.

Disfarçado, comecei a chorar. Troquei os óculos de lentes claras pelos negros ray-ban - filme. Resplandecente de infelicidade, eu subia a Rua Augusta no fim de tarde do dia Tão idiota que parecia não acabar nunca. Ah! como eu precisava tanto de alguém que me salvasse do pecado de querer abrir o gás. Foi então que a vi. Estava encostada na porta de um bar. Um bar brega - aqueles da Augusta-cidade, não Augusta-jardins. Uma prostituta, isso era o mais visível nela. Cabelo malpintado, cara muito maquiada, minissaia, decote fundo. Explícita, nada sutil, puro lugar comum patético. Em pé, de costas para o bar, encostada na porta, ela olhava a rua. Na mão direita tinha um cigarro, na esquerda um copo de cerveja.

E chorava, ela chorava. Sem escândalo, sem gemidos nem soluços, a prostituta na frente do bar chorava devagar, de verdade. A tinta da cara escorria com as lágrimas. Meio palhaça, chorava olhando a rua. Vez em quando, dava uma tragada no cigarro, um gole na cerveja. E continuava a chorar - exposta, imoral, escandalosa - sem se importar que a vissem sofrendo. Eu vi. Ela não me viu. Não via ninguém, acho. Tão voltada para a própria dor que estava, também, meio cega. Via pra dentro: charco, arame farpado, grades. Ninguém parou. Eu, também, não. Não era um espetáculo imperdível, não era uma dor reluzente de néon, não estava enquadrada ou decupada. Era uma dor sujinha como lençol usado por um mês, sem lavar, pobrinha como buraco na sola do sapato. Furo na meia, dente cariado. Dor sem glamour, de gente habitando aquela camada casca grossa da vida. Sem o recurso dessas benditas levezas de cada dia - uma dúzia de rosas, uma música de Caetano, uma caixa de figos. Comecei a emergir. Comparada à dor dela, que ridícula a minha, dor de brasileiro-médio-privilegiado. Fui caminhando mais leve. Mas só quando cheguei à Paulista compreendi um pouco mais. Aquela prostituta chorando, além de eu mesmo, era também o Brasil. Brasil 87: explorado, humilhado, pobre, escroto, vulgar, maltratado, abandonado, sem um tostão, cheio de dívidas, solidão, doença e medo. Cerveja e cigarro na porta do boteco vagabundo: carnaval, futebol. E lágrimas. Quem consola aquela prostituta? Quem me consola? Quem consola você, que me lê agora e talvez sinta coisas semelhantes? Quem consola este país tristíssimo? Vim pra casa humilde. Depois, um amigo me chamou para ajudá-lo a cuidar da dor dele. Guardei a minha no bolso. E fui. Não por nobreza: cuidar dele faria com que eu me esquecesse de mim. E fez. Quando gemeu "dói tanto", contei da moça vadia chorando, bebendo e fumando (como num bolero). E quando ele perguntou "porquê?", compreendi ainda mais. Falei: "Porque é daí que nascem as canções". E senti um amor imenso. Por tudo, sem pedir nada de volta. Não-ter pode ser bonito, descobri. Mas pergunto inseguro, assustado: a que será que se destina?

(in: Pequenas Epifanias)
Caio Fernando Abreu

terça-feira, 29 de junho de 2010

coisas de gente só



por Cristiane Moreira

caminhar sem rumo.
morar num barracão.
ter um cachorro.
fumar ouvindo música.
ouvir música.
apertar o ATUALIZAR da página para ver se aparece um email novo.
ir ao cinema terça à tarde.
chorar no banheiro.
ler o mesmo conto cinco vezes.
não saber para quem enviar o conto.
manter um diálogo imenso consigo.
observar o caminho das formigas.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

HÓSPEDES DO TEMPO




Quanto tempo falta?
O que ainda é possível fazer?
Ela está em toda parte lembrando que somos todos, hóspedes do tempo.


11º FESTIVAL DE CENAS CURTAS DO GALPÃO CINE HORTO
BELO HORIZONTE - 20 de junho de 2010

DIREÇÃO: Renato Farias
DIREÇÃO DE MOVIMENTOS: Márcio Vesolli
ATORES: Fernando Lopes, Mariana Coutinho, Vanessa Jardim
DRAMATURGIA: Tarcísio Lara Puiati
COLABORAÇÃO: Gisele Werneck
DIREÇÃO DE ARTE: Thiago Mendonça e Carol Freitas
FOTO: Carol Beiriz

terça-feira, 27 de abril de 2010

da minha janela

Quando eu era pequena eu via a morte passando pela minha janela. A morte nunca era do meu tamanho. Talvez por isso ela nunca tenha se aproximado naquela época. Ela sempre visitava as casas que ficavam ao lado da minha. Eu via as janelas vizinhas se fechando cada vez que ela chegava. A dor era sempre do outro. Não minha. Eu, com os pés pequenos, olhava para cima e via minha mãe. De cabelos longos, maiores dos que de agora. Sorriso laaargo. A felicidade fazia fartura no seu corpo. Ao lado dela, mulheres de cabelos acinzentados e de sorrisos mais desconfiados. Eu fazia as contas e tinha toda a certeza do mundo: se a morte seguisse a risca a ordem cronológica do tempo, ela demoraria para chegar. Para minha mãe. E quem sabe? Para mim, criança pequena, que já tinha medo do fim.

Hoje vejo que a morte está à nossa frente. Ela é como um espelho. Se você olha fundo dentro dele. Dentro dos seus próprios olhos, verá o medo de não mais existir. E quando você não conseguir mais enxergar seu reflexo, é porque a morte já aconteceu. Sim, de alguma forma ela já aconteceu.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

SIM de Clarice

"Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou". Clarice Lispector.

moi je serai toujours chez toi

terça-feira, 6 de abril de 2010

"Pertencia àquela espécie de gente que mergulha nas coisas às vezes sem saber por que, não sei se na esperança de decifrá-las ou se apenas pelo prazer de mergulhar…" Caio Fernando Abreu.

quinta-feira, 25 de março de 2010

para sentir

desrespeitam BH radicalmente

"Eleições municipais de 2008. Em Belo Horizonte, os candidatos inspiram mais vergonha alheia do que qualquer outra coisa. Faltam projetos, sobra lavação de roupa suja na mídia. As eleições, no entanto, não são canceladas por falta de bons candidatos.

Talvez justamente por isso, dois anos mais tarde, na administração de um dos cadidatos que não era bom o suficiente, a edição de 2010 do FIT - Festival Internacional de Teatro - tenha sido cancelada. Por não haver um número significativo de boas montagens, dizem. Duvido. O Festival de Curitiba, por exemplo, está acontecendo neste exato instante. E há dezenas de peças que parecem interessantíssimas em sua programação. As companhias nacionais de teatro reservam espaço em suas agendas para participar do melhor festival do país. Este ano, 918 projetos se increveram. 918!

Além disso, festivais têm por objetivo refletir a produção artística contemporânea. Não tem essa do nível de qualidade do FIT estar acima do nível do teatro contemporâneo.

Thaís Pimentel, presidente da Fundação Municipal de Cultura, deu outros dois motivos para o cancelamento desta edição do FIT: o fato de estar prevista para o mesmo ano em que ocorrem as eleições presidenciais e a Copa do Mundo. Ora, deveriam ter pensado sobre isso ANTES de lançar o edital. Sabe-se que 2010 é ano de Copa e de eleição bem antes de se saber que é, também, ano de FIT. Além disso, o evento estava programado para acontecer de 05 a 15 de agosto: quase um mês após a final da Copa do Mundo (11 de julho) e quase dois meses antes das eleições (03 de outubro).

Aos poucos, a prefeitura sufoca a cultura de Belo Horizonte. Já diminuiu as verbas para as leis municipais de incentivo à cultura; o prefeito Márcio Lacerda assinou um decreto proibindo a realização de eventos de qualquer natureza na Praça da Estação, que tinha sido reformada justamente para poder abrigar eventos.

A polícia aparece em toda Praia da Estação, nosso protesto contra o decreto, mas os chefões, sem o menor problema, fazem lá a largada da meia maratona da Linha Verde.

Enquanto isso, somos bombardeados por propagandas “Eu amo BH radicalmente”, como se estivesse tudo bem por aqui. Bem, é o que querem? Amemos BH, então: exijamos respeito para com a nossa cidade, para conosco. Radicalmente! Sem aceitar derrota, deixando bem claro que a cidade é de quem a habita. De quem a vive dia-a-dia.

Amanhã, panelaço na frente da Fundação Municipal de Cultura, a partir das 10h da manhã.

Na Câmara Municipal, Audiência Pública sobre a utilização da Praça da Estação.

Todo sábado, Praia da Estação.

E, se a Fundação de Cultura não voltar atrás sobre o FIT, que tal fazermos o nosso FIT - Festival Independente de Teatro? Na Praça da Estação!"

De Marili de Souza.

segunda-feira, 22 de março de 2010

domingo, 21 de março de 2010

jogo literário

Ela gostava de andar com os pés descalços. Tocar gaita. Ok! Confesso, ainda estava aprendendo. Ouvir LPs em sua vitrola antiga, que tinha acabado de comprar. Tomar sorvete de vez em quando. Dormir com a janela aberta. Nadar escutando música. Rezar dentro da água do mar. Andar sem se arrumar. Era desatenta muitas, inúmeras vezes. Mas dirigia como ninguém! Dormia tarde. E adorava ver o tempo passar devagar.

Mas para chegar a este ponto, de viver assim. Levou tempo. Tempo. Muito tempo. Quase 29 anos. E como era prazeroso soletrar seus vinte e nove anos.

Você já a conhece um pouquinho. E conhecendo assim, pode até tentar adivinhar o que vem a seguir. Ela demorou para construir sua história desta maneira. Sossegada. Inteira. E às vezes muito pela metade.

Era noite. Tinha acabado de pintar a parede de sua sala de vermelho intenso. Tinha sujado todo o chão branco da sala. O relógio em cima do balcão revelava poucos minutos para às dez da noite. Alguém toca a campanhia. Sua melhor amiga entra. O ano começava novinho em folha. Uma agenda nova e uma foto. Presente dela. O telefone toca. Convite para uma festa. Pés descalços. Mãos vermelhas de tinta. Malas prontas para viajar cedo. Estrada. Carro. Nada disso combina com festa. Mas ela foi. Acompanhada pela amiga.

Parece que o destino marca alguns compromissos fora de hora em nossas vidas. Uma festa inesperada. Ônibus atrasado. Chuva no meio da madrugada. Qualquer coisa que não seja programada ou pré estabelecida por nossas idéias - Aaah! Idéias - de querer sempre estabelecer o que está por vir.

Ela estava na festa. Sem muito saber o por que de estar ali. Conhecia novas pessoas. Ainda não tinha feito um ano sequer que ela morava naquela cidade grande de litoral. Era uma noite agitada. Festa. Música. Fotos. Muitas fotos. Perucas coloridas. Bebidas. Pouca luz. Ela? Sossegada. Não olhava muito ao redor. Observava de mansinho o desenho das histórias de quem estava sentado com ela, ali, na mesa. Mas, como é mesmo? Não programamos muito o que está por vir:

Uma revelação da amiga faz com que ela olhe para o lado. Ao desviar sua atenção. Ai. Sua atenção. Era como se seus olhos descobrissem uma nova forma de se relacionar com tudo à sua volta.

Sim. Ela gostava de andar com os pés descalços e tocar gaita. O que você não sabe é que naquela noite sua vida mudou. O motivo eu ainda não posso revelar aqui. Mas se você já a conhece um pouquinho, talvez possa ajudar. Ela anda procurando uma nova cor para pintar a parede de sua sala. Quer descobrir o que desmancha palavras escritas com lápis de cor no teto. O que faz para desaprender a fumar. (Ela fumava?) Talvez, você, caro leitor. Possa ajudá-la. Ela anda procurando como se faz para esquecer letras de músicas que sabe de cor. Quer conhecer novos discos de vinil. Quer tocar ne me quitte pas na gaita. E como apaga uma imagem refletida no espelho. O que aconteceu com ela nesta festa!? Nossa! Ela ainda não me deixou escrever. Sou apenas observador de sua história. Por isso venho intervir! Me ajude, leitor! Você é parceiro de minhas escritas e já sabe a cor preferida dela. Talvez assim você consiga desvendar este mistério. Tirá-la um pouco de casa. Deixar as ondas do mar um pouco mais suaves. Inventar novas canções para cantar de cor. E sim, descobrir como apagar as palavras de amor da parede de sua casa....

quarta-feira, 3 de março de 2010

doce e cortante

Acordei. O espelho novinho em folha da minha cabeceira caiu sobre meu travesseiro. Macio. Lembrei imediatamente de minha amiga Grace Passô. Em seu texto ela conta a história do pé de abacate plantado no quintal de sua casa, e fala de sua vontade de colocar colchões largos em volta do pé para que os abacates caíssem sem medo. Grace queria a natureza mais doce. Um espelho caindo sobre meu travesseiro também “espanca doce” o amanhecer do meu dia. Espelho reflete. Espelho corta. Espelho quebra. Espelho multiplica. Mas nesta manhã ela apenas me acordou. Quarto azul. Rio de Janeiro. Março. Chuva. Frio. Sim, frio no meu quarto do Rio. Depois de tanto tempo: agora estou sozinha aqui. Com este amanhecer bruscamente doce. Peguei super bonder para colar o espelho na parede azul da minha cabeceira. Sexy? Não. Minha intenção é apenas feminina e poética. Preciso olhar atenta para tudo à minha volta no início dos meus quase 29 anos. É sempre um horror usar essa cola contemporânea. De volta à parede, olhei meu rosto inchado no espelho e passei as pontas dos dedos no canto de um sorriso que começava a surgir. Pronto! Meus dedos ficaram presos! Colados! Grudados no meu sorriso. Agora estático. Um sorriso colado. Logo no amanhecer deste dia. Quem me obriga a sorrir? Logo hoje, dia 3 do mês 3. Há um mês meu coração feliz anunciava nada tímido a chegada de um novo amor. Hoje aqui estou. Sozinha. Inteira. Olhando meu sorriso colado na frente do espelho. Levanto da cama com meus dedos ocupados neste lirismo facial. Faria qualquer amigo que costuma acordar comigo, morrer de rir. Mas agora sozinha não tive com quem compartilhar esta minha tentativa inconsciente de ser feliz. Caminho até o banheiro. Água quente para dilatar e aquecer. Quentinho. Isso me lembra alguma coisa. Mas fica para depois. Meus dedos descolados do antigo sorriso me fazem rir da dor. O espelho. O travesseiro. O sono. O espelho poderia ter caído cortante sobre meus sonhos. Alguma coisa me protege. Sempre tive essa certeza. O “espancar doce” deste amanhecer me faz acreditar que tudo está como deveria. Começo o dia com um sorriso colocado no rosto. Água. Nada de maçã! Café bem quente. Acho que agora eu começo a entender como lidar com a queda inevitável do espelho. Deixar cair é a melhor opção. Se a queda será macia. Suave. Cortante. Ah! Isso sim será sempre uma escolha nossa.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

bird girl



"I am a bird girl now
I've got my heart
Here in my hands now
I've been searching
For my wings some time
I'm gonna be born
Into soon the sky
'Cause I'm a bird girl
And the bird girls go to heaven
I'm a bird girl
And the bird girls can fly
Bird girls can fly"
Antony And The Johnsons

trabalhos



Mariana Coutinho nasceu em 1981 em Minas Gerais. É atriz formada pelo CEFAR (Centro de Formação Artística) da Fundação Clóvis Salgado – Palácio das Artes, em Belo Horizonte, MG. É pós-graduada pela Puc-Minas em PROCESSOS CRIATIVOS EM PALAVRA E IMAGEM e formada em JORNALISMO pelo Uni-BH. Em 2009 cursou a OFICINA DE ATORES da TV GLOBO com carga horária de 1.216 horas, onde trabalhou com os diretores Marcos Schechtman e Carlos Araújo. Dentro da oficina, cursou durante 7 meses a OFICINA DE CORPO, com foco na DESAPRESENTAÇÃO DO ATOR, ministrada por Ana Kfouri. Este trabalho foi desenvolvido a partir do trabalho e obra do dramaturgo francês Valère Novarina. Também em 2009, fez a Oficina de treinamento para atores através do uso de MÁSCARAS BALINESAS, com Fabianna de Mello e Souza. Em 2010 participou do 11º FESTIVAL DE CENAS CURTAS DO GALPÃO CINE HORTO com a cena HÓSPEDES DO TEMPO, direção de Renato Farias. Também no CINE HORTO, atuou no espetáculo LÚDICO CIRCO DA MEMÓRIA de Chico Medeiros e Tiche Vianna, projeto OFICINÃO. Trabalhou também com Lenine Martins na peça O BALCÃO, de Jean Genet, e com Mauro Xavier no espetáculo ATO VARIADO. Ambos, montagem de formatura do CEFAR. Participou dos espetáculos LIVRO DE JÓ e APOCALIPSE 1.11 do grupo Teatro da Vertigem durante o FIT - Festival Internacional de Teatro, realizado em Belo Horizonte. Recentemente, trabalhou as técnicas de View Points e Sistemas Dramatúrgicos do Sinisterra com Christiane Jatahy. No cinema, atuou nos curtas DEBAIXO D'ÁGUA de Silvia Godinho, com roteiro premiado no FILME EM MINAS; SOBRE O RESTO DOS DIAS de Alexandre Baxter e Luiz Felipe Fernandes e LUNARIUM de Elza Cataldo. Participou também do longa FAMÍLIA de Guilherme Reis e Byron O' Neill.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Mostra de Cinema de Tiradentes

TV MOSTRA - cobertura completa da Mostra no site: www.mostratiradentes.com.br

do lado de lá do balcão

para Roberta (onde quer que ela esteja)
Tiradentes. Janeiro de 2003. Chuva. Sempre chove em dias especiais.

Déborah, amiga de infância, estava sentada num banquinho de madeira de um daqueles bares que contornam a praça principal de Tiradentes. Contava histórias engraçadas sobre sua vida em Juiz de Fora e descrevia com detalhes uma grande amiga, que mais tarde, iria me apresentar. Entusiasmada, declarava em voz mansa: “ela se parece tanto com você. Gosta de literatura, teatro, cinema e cores!”. Naquela época compartilhávamos tudo: viagens. Histórias. Descobertas. Sonhos. Amigos. Amores.

O entardecer ainda estava longe, mas a chuva fez Tiradentes anoitecer mais cedo naquele dia. Para quem não sabe, há mais de dez anos Tiradentes recebe no mês de Janeiro pessoas de todos os lugares do Brasil e do mundo para a Mostra de Cinema. Era o meu primeiro ano na cidade histórica que então virava cenário dos momentos mais lindos do início da minha juventude.

Anoiteceu. Já eram mais ou menos nove horas da noite. Tenda Principal lotada. Pré-estréia do filme de Débora Falabella. Chuva. Frio. Mais chuva. Não cheguei a tempo para o filme. Parei para tomar um suco, ou uma cerveja, não me lembro muito bem e isso eu deixo à escolha de sua imaginação, querido leitor. Embora o bar, sim, eu ainda consiga descrever com detalhes: barulho. Comidas gostosas. Muitas pessoas sentadas conversando. Jovens entrando e saindo a todo momento. Nenhuma mesa vazia. O balcão ficava à esquerda do bar. Foi ali que pedi a bebida. Cerveja? Pode ser que sim. Naquela época eu gostava de cerveja. O balcão fazia um L e o barman que então me atendia desviou sua atenção. Do lado de lá uma menina, sim, uma menina, de cachos vermelhos, pedia, [aí sim eu me lembro bem], uma cerveja! Curioso perceber, hoje, o que era fácil para os mais atentos naquele bar, que o rapaz ficou ali, atrás do balcão, parado com a bebida nas mãos enquanto aquela menina de flores nos cabelos encaracolados e blusa verde musgo, sorria para o lado de cá do balcão. Era como se o tempo tivesse parado naquele instante.

Foi a primeira vez que uma menina sorriu para mim. Eu? Retribui imediatamente e quase simultaneamente o sorriso. Era Roberta. Aaah, quem a conhece, sabe. Impossível não sorrir para ela.

A sessão acabou. Fui encontrar Déborah, minha amiga de infância do início desta história, e toda a turma na Tenda Principal. Queria contar que as cores daquele bar haviam mudado. Queria saber do filme e o que aconteceria no decorrer daquela noite encantadoramente chuvosa. Amigos reunidos. Déborah iria apresentar a todos, a personagem principal de suas histórias de Juiz de Fora. Incrível perceber que os encontros que acontecem em nossas vidas nos fazem sorrir de graça e até mesmo fora de hora. A amiga tão querida de Déborah, era Beta, a menina que me sorriu do lado de lá do balcão.

Foi assim que nossa história começou. Ríamos disso sempre que nos encontrávamos. O sorriso. O olhar. A blusa verde. Tiradentes. E todos os anos que estariam por vir. As histórias? Continuaram. Déborah contava as suas. Beta, descrevia em forma de crônicas e poesia tudo o que ela secretamente escrevia. Não me esqueço. No meio da noite. Em qualquer lugar. Ela contava histórias. Eu perguntava: -“quando isso aconteceu?” e ela me respondia: -“não aconteceu, eu escrevi!”.

Pelo sorriso. Pelas histórias. Hoje eu escrevo [registro] o início de nossa história. Para ela.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Feliz 2010



"Debaixo dágua tudo era mais bonito
mais azul mais colorido
só faltava respirar

Mas tinha que respirar

Debaixo dágua se formando como um feto
sereno confortável amado completo
sem chão sem teto sem contato com o ar

Mas tinha que respirar
Todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia
Debaixo dágua por encanto sem sorriso e sem pranto
sem lamento e sem saber o quanto
esse momento poderia durar

Mas tinha que respirar

Debaixo dágua ficaria para sempre ficaria contente
longe de toda gente para sempre
no fundo do mar

Mas tinha que respirar
Todo dia
Todo dia, todo dia
todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia

Debaixo dágua protegido salvo fora de perigo
aliviado sem perdão e sem pecado
sem fome sem frio sem medo sem vontade de voltar

Mas tinha que respirar

Debaixo dágua tudo era mais bonito
mais azul mais colorido
só faltava respirar

Mas tinha que respirar
Todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia"

(Arnaldo Antunes)