quinta-feira, 9 de junho de 2011

Só o tempo, o sono, a fé ajudam a digerir tudo o que não foi traduzido em palavras e de alguma forma foi jogado ao vento, deslocando sua realidade para um lugar inesperado. Amanhece o dia, ela abre os olhos e tudo está diferente de antes. Acontece todas as manhãs. Mudanças gritantes. Algumas vezes invisíveis, outras tangíveis demais. Ela, forte, quieta: suporta. Não sem dor. Mas suporta.

domingo, 5 de junho de 2011

hoje eu me casei com você


Hoje eu me casei com você. Nos últimos dez minutos da luz do dia. Os olhos em sepia registraram tudo o que estava por vir. Vem? A música era você quem escolhia. Piano. Sax. Silêncio. Hoje eu me casei com você. Fechei todas as histórias inacabadas da minha estrada. Plantei flores na porta da sua casa. Vi o cortorno do seu corpo dançar no espaço. Vazio. Nas ruas cheias desta cidade. Ônibus. Chuva. Frio. Eu vi você. Sem saber. Hoje eu me casei com você antes de te conhecer.

Foto: Atriz e bailarina, Roberta Savian.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

de dentro do ônibus

Estava sentada no ônibus e de repente uma percepção me assustou. Comecei a observar as pessoas que passavam pela roleta e pensei: - "eu nunca antes vi nenhuma delas!" Mas que susto, Meu Deus! Nenhuma delas! A todo instante eu vejo novas pessoas. E, ao mesmo tempo, sinto tê-las ao alcance de meus conhecimentos. Sinto já tê-las escutado e tocado. Não preciso delas. Ainda não. Dentro dali elas são apenas passageiras. Mas se ficarem por muito tempo farão falta. Deixarão vazio. E logo vão embora. Se eu continuar, chegarão outras e outras mais. Se eu olhar pela janela do ônibus, elas também estarão lá fora correndo atrás de um tempo que não perdoa. Elas estão por toda a parte e eu não as conheço. São como eu: são amigas, caridosas, carentes, criminosas, egoístas, generosas. São de todos os tipos e se misturam como se fossem cores. Eu não posso mais ficar parada, sentada ali. Alguém que conheço faz tempo, me espera em algum lugar e nem acredita quando eu chego em casa. Embora eu sinta que conheça todos, não conheço. Sei que preciso conhecê-los e desejar a todos, felicidades. Eles são interessantes. Mas são muitos. Isso me assusta: somos muitos. Então eu puxo a cordinha e desço correndo do ônibus para encontrar quem me conhece e espera por mim.