sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

vou embora com você



Você tinha se tornado alguém que eu via passar de longe e não reconhecia mais. Eu já não sentia você. Não sabia você. Não percebia você. Meus olhos te procuravam, retornavam, guardavam, mas sempre a partir daquela foto antiga que não era mais o que é você agora. Três anos te guardaram de mim. Em mim. E agora eu estou aqui sentada nesta mesa olhando para os seus olhos enquanto suas mãos escorregam neste copo esfumaçado de bebida gelada e eu não consigo dizer tudo o que eu penso. Suas pernas trêmulas entregam o seu estado e você insiste em dizer que é natural. São três horas da manhã e eu te escuto falar de outros amores, paquera, sexo, trabalho, religião, viagem, cidade, saudade. Eu também continuo insistindo em mostrar o que eu acredito. Você com este único cigarro na mão esquerda, saiu daquela fotografia antiga e deslizou para o meu presente. Eu continuo insistindo em outros amores, te conto sobre todos eles e você com esse sorriso sem graça de quem não pode mais regular o tamanho da minha roupa, sequer me olha nos olhos. Eu, daqui, querendo que você me olhe inteira; olho para o meu copo vazio para que você consiga desviar o olhar até a mim sem que eu te assuste. Você não me deixa perceber. Eu preciso te redescobrir. Arriscar. Entender o que você quer. Eu sonho contigo enquanto você me liga milhares de vezes numa mesma noite. É por isso que estou aqui sentada nesta mesa com você. Não fui eu que insisti. Foi você que me chamou. Esqueço de tudo. Do seu último namoro. Das minhas viagens. Dos três anos que nos separaram. Os dois copos agora vazios em cima da mesa antecedem uma decisão. Vou embora com você.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Ensaio Criança Esperança 2011

Porque não seríamos atores se a doação não fosse por inteiro e sem medida.




Porque não seríamos atores se a doação não fosse por inteiro e sem medida.

Portinari


"O alvo da minha pintura é o sentimento. Para mim, a técnica é meramente um meio. Porém, um meio indispensável."
(Candido Portinari)







terça-feira, 26 de julho de 2011

coisas invisíveis



Fragmento de texto extraído da peça "Coisas Invisíveis", Cia Clara de Teatro.

Voz: Mariana Coutinho

"– Oi. Sou eu. Já está tarde, foram todos dormir e fiquei aqui sozinho. Hoje você foi embora, nós nos despedimos, mas acho que não tive a oportunidade de dizer tudo o que eu queria, e por isso estou gravando essa fita. Talvez seja apenas uma forma de te sentir ainda por perto, mas na verdade o fato de você não estar aqui significa agora mais do que a sua presença significava antes. Porque com isso eu acho que começo a entender que as pessoas... como é que vou dizer? Que as pessoas não nasceram para realizar os meus planos de uma felicidade ensolarada, os meus projetos de um futuro pleno e perfeito, mas sim elas próprias têm seus sonhos à sua maneira. Aí eu fico pensando que o que vale mesmo é a forma como um sonho se encontra com o outro e o modifica, a maneira como as pessoas atravessam a vida das outras e as transformam, embora elas muitas vezes não saibam como isso acontece, ou quando, e por quê. E neste momento você deve estar pegando um ônibus, ou olhando as vitrines no saguão de um aeroporto, enquanto eu tô aqui buscando as palavras menos inadequadas para dizer que de alguma forma isso é a conclusão de uma história, o fechamento de um ciclo, para que tudo recomece nessa dança de encontros e desencontros... que chamamos de vida, ou realidade, ou o que quer que seja. Mas pode ser que você esteja sentindo isso também, e assim nós estamos unidos em torno desse sentimento. E eu poderia ficar falando a noite inteira só para manter essa sensação de um vínculo, de um pertencimento, de uma conciliação, mas não, acho que está na hora de deixar você, de deixar todos vocês irem embora em suas diversas direções. Ah, mas só mais uma coisa antes de terminar: é que, independente de nossos planos ideais realizarem-se ou não, nós vamos ser felizes. Talvez de uma maneira muito diferente da que tínhamos imaginado, sim, nós vamos ser felizes. Disso eu tenho certeza."

sábado, 9 de julho de 2011

hoje você se despediu de mim


Hoje você se despediu de mim sem que pudéssemos perceber. Nos últimos minutos do primeiro dia deste mês de inverno. Os olhos cheios desistiram de tudo o que estava por vir. Vai? Minhas mãos alcançavam o futuro e os seus pés voltavam ao passado. O som repetia incansavelmente a mesma melodia. Hoje você se despediu de mim e me perguntou o que eu faria com os nossos últimos segundos. Sorri e entreguei tudo o que tinha. Vi o movimento do seu corpo adormecer no escuro. No silêncio da madrugada desta cidade. Ruas. Carros. Chuva. Frio. Hoje você se despediu de mim antes que eu pudesse te reconhecer.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Só o tempo, o sono, a fé ajudam a digerir tudo o que não foi traduzido em palavras e de alguma forma foi jogado ao vento, deslocando sua realidade para um lugar inesperado. Amanhece o dia, ela abre os olhos e tudo está diferente de antes. Acontece todas as manhãs. Mudanças gritantes. Algumas vezes invisíveis, outras tangíveis demais. Ela, forte, quieta: suporta. Não sem dor. Mas suporta.

domingo, 5 de junho de 2011

hoje eu me casei com você


Hoje eu me casei com você. Nos últimos dez minutos da luz do dia. Os olhos em sepia registraram tudo o que estava por vir. Vem? A música era você quem escolhia. Piano. Sax. Silêncio. Hoje eu me casei com você. Fechei todas as histórias inacabadas da minha estrada. Plantei flores na porta da sua casa. Vi o cortorno do seu corpo dançar no espaço. Vazio. Nas ruas cheias desta cidade. Ônibus. Chuva. Frio. Eu vi você. Sem saber. Hoje eu me casei com você antes de te conhecer.

Foto: Atriz e bailarina, Roberta Savian.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

de dentro do ônibus

Estava sentada no ônibus e de repente uma percepção me assustou. Comecei a observar as pessoas que passavam pela roleta e pensei: - "eu nunca antes vi nenhuma delas!" Mas que susto, Meu Deus! Nenhuma delas! A todo instante eu vejo novas pessoas. E, ao mesmo tempo, sinto tê-las ao alcance de meus conhecimentos. Sinto já tê-las escutado e tocado. Não preciso delas. Ainda não. Dentro dali elas são apenas passageiras. Mas se ficarem por muito tempo farão falta. Deixarão vazio. E logo vão embora. Se eu continuar, chegarão outras e outras mais. Se eu olhar pela janela do ônibus, elas também estarão lá fora correndo atrás de um tempo que não perdoa. Elas estão por toda a parte e eu não as conheço. São como eu: são amigas, caridosas, carentes, criminosas, egoístas, generosas. São de todos os tipos e se misturam como se fossem cores. Eu não posso mais ficar parada, sentada ali. Alguém que conheço faz tempo, me espera em algum lugar e nem acredita quando eu chego em casa. Embora eu sinta que conheça todos, não conheço. Sei que preciso conhecê-los e desejar a todos, felicidades. Eles são interessantes. Mas são muitos. Isso me assusta: somos muitos. Então eu puxo a cordinha e desço correndo do ônibus para encontrar quem me conhece e espera por mim.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Segundo dia de ENTRENCONTROS

Há um mês eles se encontraram pela primeira vez. Personagens de lugares diferentes ocupando o espaço vazio do apartamento onde irão morar a partir de agora. Neste segundo encontro chegaram Roberta Savian e Janaína Moreno, duas novas moradoras do apartamento. No decorrer deste dia todos compartilharam um segredo.




















Primeiro dia de ENTRENCONTROS



O que você levaria para um primeiro encontro onde ninguém te conhece? O que poderia traduzir você e te representar neste momento de sua vida?

Neste vídeo, um registro informal do primeiro encontro do projeto ENTRENCONTROS.


BLOG OFICIAL: http://entrencontros.blogspot.com/

Janela Aberta



No primeiro encontro, cada integrante de ENTRENCONTROS levou o que pudesse representá-lo neste momento de sua vida. Eu levei um texto para cada integrante-personagem. Neste vídeo, a figurinista Tati Brescia lê o texto dedicado à ela, JANELA ABERTA.

"Outro dia deixei a porta de casa aberta. Achei que assim a textura do ar modificaria. Meu olhar diante do mundo se ajustaria. E meus dias se transformariam em festa. Com este ar extremamente oxigenado desta cidade ninguém gosta de ficar sozinho. Eu gosto. Mas às vezes não me dou descanso. Insisto vez ou outra em deixar a porta aberta. E eles chegaram. Assim. Sim. Sempre pedindo licença. Sorriso de quem gosta e educação de quem quer ficar. Trocamos as cores da sala. Comentamos sobre as músicas de cada repertório particular. Falamos sobre projetos. Sonhos. Confessamos discretamente, cada um de nós, como é difícil andar nas ruas cheias desta cidade. Ai. Aqui, sentados no chão. Cinzeiros cheios de angústias. Taças cheias de vinho. Amanhecer ao lado de um amigo nunca é tarde demais. Mas com o passar dos dias, aqui, nesta cidade daqui, eu descobri que a porta nunca deve ficar aberta. Não. Sorriso e boa educação não mostram quem é amigo, ou não. Por favor, me escute! A porta deve estar sempre trancada. Para que aqueles, estes do lado de cá, que compartilham os mesmos tons, possam bater assim: devagarzinho. É tão simples. Assim. A porta de casa deve estar sempre trancada. Para que os anjos, ah sim, os anjos, possam entrar pela nossa janela."

Doce e cortante



Primeiro dia de ENTRENCONTROS. Neste vídeo o ator João Gabriel lê o texto "Doce e cortante", escrito por mim há algum tempo.

"Acordei. O espelho novinho em folha da minha cabeceira caiu sobre meu travesseiro. Macio. Lembrei imediatamente de minha amiga Grace Passô. Em seu texto ela conta a história do pé de abacate plantado no quintal de sua casa, e fala de sua vontade de colocar colchões largos em volta do pé para que os abacates caíssem sem medo. Grace queria a natureza mais doce. Um espelho caindo sobre meu travesseiro também “espanca doce” o amanhecer do meu dia. Espelho reflete. Espelho corta. Espelho quebra. Espelho multiplica. Mas nesta manhã ela apenas me acordou. Quarto azul. Rio de Janeiro. Março. Chuva. Frio. Sim, frio no meu quarto do Rio. Depois de tanto tempo: agora estou sozinha aqui. Com este amanhecer bruscamente doce. Peguei super bonder para colar o espelho na parede azul da minha cabeceira. Sexy? Não. Minha intenção é apenas feminina e poética. Preciso olhar atenta para tudo à minha volta no início dos meus quase 29 anos. É sempre um horror usar essa cola contemporânea. De volta à parede, olhei meu rosto inchado no espelho e passei as pontas dos dedos no canto de um sorriso que começava a surgir. Pronto! Meus dedos ficaram presos! Colados! Grudados no meu sorriso. Agora estático. Um sorriso colado. Logo no amanhecer deste dia. Quem me obriga a sorrir? Logo hoje, dia 3 do mês 3. Há um mês meu coração feliz anunciava nada tímido a chegada de um novo amor. Hoje aqui estou. Sozinha. Inteira. Olhando meu sorriso colado na frente do espelho. Levanto da cama com meus dedos ocupados neste lirismo facial. Faria qualquer amigo que costuma acordar comigo, morrer de rir. Mas agora sozinha não tive com quem compartilhar esta minha tentativa inconsciente de ser feliz. Caminho até o banheiro. Água quente para dilatar e aquecer. Quentinho. Isso me lembra alguma coisa. Mas fica para depois. Meus dedos descolados do antigo sorriso me fazem rir da dor. O espelho. O travesseiro. O sono. O espelho poderia ter caído cortante sobre meus sonhos. Alguma coisa me protege. Sempre tive essa certeza. O “espancar doce” deste amanhecer me faz acreditar que tudo está como deveria. Começo o dia com um sorriso colocado no rosto. Água. Nada de maçã! Café bem quente. Acho que agora eu começo a entender como lidar com a queda inevitável do espelho. Deixar cair é a melhor opção. Se a queda será macia. Suave. Cortante. Ah! Isso sim será sempre uma escolha nossa."

quinta-feira, 28 de abril de 2011

ENTRENCONTROS


Um apartamento. Grande. Vazio.

Seis personagens se encontram pela primeira vez neste espaço, onde irão morar juntos. Três mulheres. Três homens. Todos de lugares diferentes. São seis jovens que decidiram mudar a rota de suas vidas. Mudam de cidade. Cada um com sua história. Cada um iniciando um momento de transformação.

O espaço começa a ser desenhado a partir da entrada de cada personagem, com as histórias e objetos trazidos por eles. A narrativa também será construída desta forma.

O que move o espetáculo: o encontro.

Como um espaço vazio pode ser preenchido e transformado a partir de vários encontros em nossas vidas? Um espaço que será construído mas pode ser desconstruído a qualquer momento. É este o lugar de risco que envolve os personagens.

VISITE O BLOG: http://entrencontros.blogspot.com/

Vídeo ENTRENCONTROS



No primeiro encontro, cada integrante de ENTRENCONTROS levou o que pudesse representá-lo neste momento de sua vida. A atriz Mariana Coutinho, levou um texto para cada integrante-personagem. Neste vídeo, a figurinista Tati Brescia lê o texto dedicado à ela, JANELA ABERTA.

superfície da terra

então o que você esperava de mim? Que eu deixasse escorrer sobre a superfície todas aquelas suas palavras do primeiro encontro? Eu sei, sou aparentemente intocável, e trago uma certa arrogância nesta minha postura séria, este meu jeito de dizer "não" querendo dizer "sim". Como eu fiz tantas vezes com você. Mas é aparência. Você viu de perto. Então me diz, você acha mesmo que dois meses não são nada? De fato, dois meses perto de três anos. Ou seis anos. De fato, não são suficientes para... para quê mesmo? Mas são os primeiros meses, e esta contagem inicial de qualquer encontro é o que define o que está por vir. Aaahh... então você esperava que eu deixasse escorrer sobre a minha superfície tudo aquilo que você provocou de mansinho em mim? Não, não. Sou profunda demais pra isso. Complexa demais pra isso. Meu olhar engole todos os detalhes à minha volta. Nada passa desapercebido. Dois meses que começaram com o novo ano. No ponto mais alto da minha cidade preferida. Dois meses compartilhados com milhões de amigos, família, cachorro, cartas, fotos, festas, aniversário, silêncio, quedas e você acha ainda que eu deixaria escorrer tudo isso sobre a minha superfície? Me diz! Me responde? Não. Eu não deixei escorrer. Tudo o que vivemos encharcou toda a minha respiração. Sem dor, vai! Tá tudo bem. A cortina batendo de mansinho na janela. O sol gritando lá fora. O cachorrinho preto latindo de manhã. A rede esquecida na varanda. Horas e horas de trabalho, projetos, criações, escritos, corridas, encontros com os amigos, viagem de madrugada, contratos, colo de mãe, chuva, tudo isso preenchendo aquele tempo dilatado que nós vivíamos só para... para quê mesmo? Para o quanto que queríamos de nós. Tá tudo bem, tudo isso faz com que tudo o que vivemos pareça (Ah!) distante. Está tudo certo. Minha respiração já não está tão ofegante assim. Mas não me deixe ver o seu nome na chamada do meu celular ou uma foto sua esquecida por aqui que... eu voltarei a te perguntar se... você acha mesmo que eu deixaria escorrer sobre minha superfície tudo o que eu sonhei com você?


Estou encharcada de você.

domingo, 24 de abril de 2011

I believe

"I don't believe in promise. I don't believe in chance. I don't believe you can resist the things that make no sense. I don't believe reality would bethe way it should. But I believe in fantasy the future's understood."

segunda-feira, 28 de março de 2011

olhos encharcados



Hoje amanheço olhando para o céu e o que escorre na minha pele não é dor nem felicidade, só, o que me permeia de modo inerente é uma coragem incansável de mergulhar. Então eu lanço meu olhar para o espaço, para este céu infinito em busca de alguma resposta que seja menos pronta, menos obvia, que simplesmente seja. Meus olhos encharcados transbordam serenos e me fazem aceitar o que não posso mudar. Por tanto amor. Tanta vontade. Tanto desejo. Deixo ir da minha história um sonho, trazendo-o forte dentro de mim. No meu silêncio e neste meu mundo particular, eu o guardo.

terça-feira, 22 de março de 2011

para voar!

Eu estava andando sozinha, embora estivesse acompanhada. Olhava para o mar com olhos de solidão. Aquela solidão boa, aconchegada, desejada. Vi o ano mudar olhando para o céu estrelado. E talvez por isso o céu deste ano nunca tenha passado desapercebido. Procuro os lugares mais altos para mudar meu ponto de vista. Ando com urgência pe...la linha do horizonte. Saber onde queremos chegar é fundamental. Por isso me mantenho atenta olhando para o céu. É preciso ver os olhos curiosos de quem passa por perto. Alguns perguntam se eu quero voar. É isso! O meu desejo sempre foi me jogar em queda livre no ponto mais alto do topo do mundo. E cair macio em terra firme. Seria possível? Só experimentando para saber. Ainda não tive coragem. Mas meus olhos estão atentos e meus pés estão soltos, dançando no chão. Meus pensamentos voam. Certeiros, como uma flecha. O que estou fazendo? Estou construindo minhas asas. E para que elas consigam me levar até o ponto mais alto deste céu, preciso escolher de quê elas serão feitas. Qual cor elas teriam? Ando pelas ruas colecionando movimentos para construí-las. Este é o ingrediente principal. Mover-se com flexibilidade pelo mundo. Quero asas firmes e corpo maleável para me encaixar nos contornos desta cidade. Ser grande e pequena ao mesmo tempo. Flutuar entre os extremos. Sou forte sendo assim. Eu, que andava sozinha com meus olhos de solidão, descobri também que para construir minhas asas é preciso encontrar meus pares. Embora o salto e as quedas sejam sempre individuais, brincar de escorregar pelo céu sempre é melhor quando temos com quem compartilhar. E nesta minha procura, encontro de surpresa uma carta na minha caixa de correio dizendo que para manter-se firme nesta cidade de ar extremante oxigenado, é preciso silêncio e recolhimento. E um convite para dançar! Três outros ingredientes para a construção de minhas asas. Elas doem e machucam ao serem construídas. Mas quando elas tiverem prontas, não haverá nada que me impeça de me jogar de olhos fechados neste céu movimentado.

quarta-feira, 16 de março de 2011

A arte de perder não é nenhum mistério...

“A arte de perder não é nenhum mistério
tantas coisas contém em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouco a cada dia. Aceite austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. Um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

Mesmo perder você (a voz, o ar etéreo, que eu amo)
não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser um mistério
por muito que pareça (escreve) muito sério.”

(Elizabeth Bishop)

asas do desejo



“Uma pedestre fechou o guarda chuva no meio da chuva e ficou encharcada. Um aluno descreveu para a professora como a samambaia brota da terra e ela se surpreendeu. Uma cega sentindo a minha presença apalpa o relógio. É ótimo ser espírito e testemunhar por toda a eternidade apenas o lado espiritual das pessoas”.

Asas do desejo; Wim Wenders, 1987.

aparentemente




Amanhece mais um dia. A rua está vazia e parece um cenário da vida real. Os personagens surgem aos poucos e tudo acontece como os olhos já estão acostumados a observar. O silêncio é quebrado pelos primeiros movimentos da vida cotidiana dos moradores em seus apartamentos. Há um prédio residencial antigo... vários porteiros... as lojas: de aviamentos, revistas, chocolates, cadeiras de roda, sapatos, jóias, computadores, padaria, salão de beleza e papelaria. Os funcionários dos prédios e os donos das lojas acordam mais cedo para reafirmar que, naquela rua da capital mineira, está tudo em seu devido lugar. As portas da rua estão sendo abertas. É de manhã e tudo acontece, aparentemente, da mesma forma. Aparentemente: o mesmo andamento dos carros, os jornais sendo entregues à banca de revistas, a mesma melodia do encontro de diversos sons incessantes, o ritmo apressado das pessoas, a pulsação lenta e contraditória do andar dos idosos, a espera paciente e lenta das manicures por seus fregueses. O falar gritado e agudo da faxineira do prédio, o cochicho entre os donos de lojas, o bom humor fabricado pela pré-disposição do dono da mercearia.

Tudo acontece da mesma forma. Aparentemente. Crianças saindo e chegando das escolas, mães à procura de um consolo maior para os filhos, lavadores de carros trabalhando, adolescentes matando aula no bar da esquina. Os acontecimentos são fiéis aos olhares cotidianos. Olhar sem pausa para uma vida que segue na mesma pulsação. Olhar sem pausa. Olhar sem pressa. Olhar acostumado e contaminado. E as luzes do dia também são fiéis ao costume e à espera desses mesmos olhares. Luzes que anunciam, sempre da mesma forma, a chegada ritmada da manhã, o sol forte do meio dia, a lentidão do entardecer e o sossego da noite.

Para os olhares que criam um distanciamento, e conseguem observar o cenário daquela rua em seu silêncio, ficarão, inicialmente, as imagens construídas e sempre resgatas pelas pessoas dali. Imagens que oferecem a sensação de que tudo acontece da mesma forma. Aparentemente. Mas, no silêncio daquela rua, pode-se escutar um segundo ritmo do coração daquelas pessoas. São os seus sonhos, que nunca acontecem da mesma forma. Ritmo diferenciado de corações, muitas vezes, descompassados num apego ou desprendimento.

Tudo acontece da mesma forma. Aparentemente. Esses olhares sem pausa e sem pressa observam apenas – e pacientemente – a mesma aparência da vida cotidiana em uma só pulsação. Já o olhar em silêncio, é capaz de observar os sonhos e as modificações, e é sensível a novos ritmos e melodias. Um olhar que vai além da escuta corriqueira daquela rua, que consegue observar os movimentos suaves e as coisas invisíveis. Tudo acontece da mesma forma. Aparentemente. Mas basta uma sutil transformação do cenário: a falta de um personagem, a mudança do horário ou a alteração do ritmo de um sonho, que o olhar silencioso, esse que existe no centro da gente, torna-se sensível ao vazio intangível a qualquer forma acomodada, sem pausa e apressada de levar a vida.

quarta-feira, 2 de março de 2011

durabilidade


Nestes dias que antecedem meu aniversário, ando pensando na durabilidade das coisas. Fazer 30 anos deixa qualquer um olhando para o mundo com mais coragem, é isso? Esse sentimento potente que nos faz observar o tempo que cada coisa leva para existir como de fato é. Sim, às vezes é preciso uma vida inteira para ocupar este lugar. Aqui, entre eu e você, confesso que nos meus olhos cabem ao mesmo tempo esta coragem e também uma certa fragilidade. Ou seria delicadeza? Por mais forte que a vida seja, ela é e sempre será medida pela sutileza que existe na durabilidade de sua formação. Quanto tempo você demorou para chegar até aqui? Quanto tempo demorou para abrir sua caixa de mensagem? Sim, quero saber, quanto tempo é preciso ter para esquecer todas as suas mensagens? E por quanto tempo esta chuva que está caindo lá fora vai colorir de cinza nosso céu? Quanto tempo leva para o sol retornar até o início do dia de amanhã? Infinitos segundos entre você, aí onde está, e eu, aqui onde estou. Sim, nestes dias que antecedem meu aniversário, ando pensando na durabilidade das coisas. No tempo que demoro para escrever este texto e no número de dias que ele ficará guardado em sua memória. No saco de maçãs que trouxe outro dia da feira e na permanência do sabor de cada uma delas. Por quanto tempo elas permanecerão prontas para serem degustadas? Sim, ando pensando no tempo que levou para que a semente do Ipê amarelo que plantei no meu 28º aniversário, brotasse. Me diz? Quanto tempo levou para que eu te escrevesse essa carta, desde que nos conhecemos? É exatamente por isso. Pela quantidade quase incontável de segundos entre o dia que nos conhecemos até o dia de hoje que eu te convido para o nosso próximo encontro.

sábado, 15 de janeiro de 2011

SOBRE O RESTO DOS DIAS

Trailer - Sobre o resto dos dias from Luis Vieira on Vimeo.



ESTRÉIA DIA 26 DE JANEIRO
MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES

A descoberta de sentimentos. A dor que vai além da troca, do desleixo, do abandono. Uma perda que pode ir além dos desafetos e suscitar as dúvidas e surpresas de algo inesperado. A falta do que dizer nos momentos em que tudo parece estar perdido. As dores universais, pessoais e intransferíveis dos amores que se ferem. Uma história como tantas outras. Exceto pelo fato de que nenhuma história é exatamente igual.

Ficha Técnica:

Direção: Alexandre Baxter e Luiz Felipe Fernandes
Elenco: Alexandre Cioletti, Mariana Coutinho e Carolina Corrêa
Roteiro: Gabriela Kimura e Alexandre Baxter

Brasil, 2010.
Duração: 17 minutos
Produtora: Olho de Peixe


http://www.olhodepeixe.com.br/sobreorestodosdias/

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

O amor feminino é o que me faz mover e deixar de sentir tudo pela metade. Mas é o amor masculino que me faz transgredir. E a mistura dos dois é o que me faz romper com o que há de mais paralisante em mim.