segunda-feira, 28 de março de 2011

olhos encharcados



Hoje amanheço olhando para o céu e o que escorre na minha pele não é dor nem felicidade, só, o que me permeia de modo inerente é uma coragem incansável de mergulhar. Então eu lanço meu olhar para o espaço, para este céu infinito em busca de alguma resposta que seja menos pronta, menos obvia, que simplesmente seja. Meus olhos encharcados transbordam serenos e me fazem aceitar o que não posso mudar. Por tanto amor. Tanta vontade. Tanto desejo. Deixo ir da minha história um sonho, trazendo-o forte dentro de mim. No meu silêncio e neste meu mundo particular, eu o guardo.

terça-feira, 22 de março de 2011

para voar!

Eu estava andando sozinha, embora estivesse acompanhada. Olhava para o mar com olhos de solidão. Aquela solidão boa, aconchegada, desejada. Vi o ano mudar olhando para o céu estrelado. E talvez por isso o céu deste ano nunca tenha passado desapercebido. Procuro os lugares mais altos para mudar meu ponto de vista. Ando com urgência pe...la linha do horizonte. Saber onde queremos chegar é fundamental. Por isso me mantenho atenta olhando para o céu. É preciso ver os olhos curiosos de quem passa por perto. Alguns perguntam se eu quero voar. É isso! O meu desejo sempre foi me jogar em queda livre no ponto mais alto do topo do mundo. E cair macio em terra firme. Seria possível? Só experimentando para saber. Ainda não tive coragem. Mas meus olhos estão atentos e meus pés estão soltos, dançando no chão. Meus pensamentos voam. Certeiros, como uma flecha. O que estou fazendo? Estou construindo minhas asas. E para que elas consigam me levar até o ponto mais alto deste céu, preciso escolher de quê elas serão feitas. Qual cor elas teriam? Ando pelas ruas colecionando movimentos para construí-las. Este é o ingrediente principal. Mover-se com flexibilidade pelo mundo. Quero asas firmes e corpo maleável para me encaixar nos contornos desta cidade. Ser grande e pequena ao mesmo tempo. Flutuar entre os extremos. Sou forte sendo assim. Eu, que andava sozinha com meus olhos de solidão, descobri também que para construir minhas asas é preciso encontrar meus pares. Embora o salto e as quedas sejam sempre individuais, brincar de escorregar pelo céu sempre é melhor quando temos com quem compartilhar. E nesta minha procura, encontro de surpresa uma carta na minha caixa de correio dizendo que para manter-se firme nesta cidade de ar extremante oxigenado, é preciso silêncio e recolhimento. E um convite para dançar! Três outros ingredientes para a construção de minhas asas. Elas doem e machucam ao serem construídas. Mas quando elas tiverem prontas, não haverá nada que me impeça de me jogar de olhos fechados neste céu movimentado.

quarta-feira, 16 de março de 2011

A arte de perder não é nenhum mistério...

“A arte de perder não é nenhum mistério
tantas coisas contém em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouco a cada dia. Aceite austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. Um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

Mesmo perder você (a voz, o ar etéreo, que eu amo)
não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser um mistério
por muito que pareça (escreve) muito sério.”

(Elizabeth Bishop)

asas do desejo



“Uma pedestre fechou o guarda chuva no meio da chuva e ficou encharcada. Um aluno descreveu para a professora como a samambaia brota da terra e ela se surpreendeu. Uma cega sentindo a minha presença apalpa o relógio. É ótimo ser espírito e testemunhar por toda a eternidade apenas o lado espiritual das pessoas”.

Asas do desejo; Wim Wenders, 1987.

aparentemente




Amanhece mais um dia. A rua está vazia e parece um cenário da vida real. Os personagens surgem aos poucos e tudo acontece como os olhos já estão acostumados a observar. O silêncio é quebrado pelos primeiros movimentos da vida cotidiana dos moradores em seus apartamentos. Há um prédio residencial antigo... vários porteiros... as lojas: de aviamentos, revistas, chocolates, cadeiras de roda, sapatos, jóias, computadores, padaria, salão de beleza e papelaria. Os funcionários dos prédios e os donos das lojas acordam mais cedo para reafirmar que, naquela rua da capital mineira, está tudo em seu devido lugar. As portas da rua estão sendo abertas. É de manhã e tudo acontece, aparentemente, da mesma forma. Aparentemente: o mesmo andamento dos carros, os jornais sendo entregues à banca de revistas, a mesma melodia do encontro de diversos sons incessantes, o ritmo apressado das pessoas, a pulsação lenta e contraditória do andar dos idosos, a espera paciente e lenta das manicures por seus fregueses. O falar gritado e agudo da faxineira do prédio, o cochicho entre os donos de lojas, o bom humor fabricado pela pré-disposição do dono da mercearia.

Tudo acontece da mesma forma. Aparentemente. Crianças saindo e chegando das escolas, mães à procura de um consolo maior para os filhos, lavadores de carros trabalhando, adolescentes matando aula no bar da esquina. Os acontecimentos são fiéis aos olhares cotidianos. Olhar sem pausa para uma vida que segue na mesma pulsação. Olhar sem pausa. Olhar sem pressa. Olhar acostumado e contaminado. E as luzes do dia também são fiéis ao costume e à espera desses mesmos olhares. Luzes que anunciam, sempre da mesma forma, a chegada ritmada da manhã, o sol forte do meio dia, a lentidão do entardecer e o sossego da noite.

Para os olhares que criam um distanciamento, e conseguem observar o cenário daquela rua em seu silêncio, ficarão, inicialmente, as imagens construídas e sempre resgatas pelas pessoas dali. Imagens que oferecem a sensação de que tudo acontece da mesma forma. Aparentemente. Mas, no silêncio daquela rua, pode-se escutar um segundo ritmo do coração daquelas pessoas. São os seus sonhos, que nunca acontecem da mesma forma. Ritmo diferenciado de corações, muitas vezes, descompassados num apego ou desprendimento.

Tudo acontece da mesma forma. Aparentemente. Esses olhares sem pausa e sem pressa observam apenas – e pacientemente – a mesma aparência da vida cotidiana em uma só pulsação. Já o olhar em silêncio, é capaz de observar os sonhos e as modificações, e é sensível a novos ritmos e melodias. Um olhar que vai além da escuta corriqueira daquela rua, que consegue observar os movimentos suaves e as coisas invisíveis. Tudo acontece da mesma forma. Aparentemente. Mas basta uma sutil transformação do cenário: a falta de um personagem, a mudança do horário ou a alteração do ritmo de um sonho, que o olhar silencioso, esse que existe no centro da gente, torna-se sensível ao vazio intangível a qualquer forma acomodada, sem pausa e apressada de levar a vida.

quarta-feira, 2 de março de 2011

durabilidade


Nestes dias que antecedem meu aniversário, ando pensando na durabilidade das coisas. Fazer 30 anos deixa qualquer um olhando para o mundo com mais coragem, é isso? Esse sentimento potente que nos faz observar o tempo que cada coisa leva para existir como de fato é. Sim, às vezes é preciso uma vida inteira para ocupar este lugar. Aqui, entre eu e você, confesso que nos meus olhos cabem ao mesmo tempo esta coragem e também uma certa fragilidade. Ou seria delicadeza? Por mais forte que a vida seja, ela é e sempre será medida pela sutileza que existe na durabilidade de sua formação. Quanto tempo você demorou para chegar até aqui? Quanto tempo demorou para abrir sua caixa de mensagem? Sim, quero saber, quanto tempo é preciso ter para esquecer todas as suas mensagens? E por quanto tempo esta chuva que está caindo lá fora vai colorir de cinza nosso céu? Quanto tempo leva para o sol retornar até o início do dia de amanhã? Infinitos segundos entre você, aí onde está, e eu, aqui onde estou. Sim, nestes dias que antecedem meu aniversário, ando pensando na durabilidade das coisas. No tempo que demoro para escrever este texto e no número de dias que ele ficará guardado em sua memória. No saco de maçãs que trouxe outro dia da feira e na permanência do sabor de cada uma delas. Por quanto tempo elas permanecerão prontas para serem degustadas? Sim, ando pensando no tempo que levou para que a semente do Ipê amarelo que plantei no meu 28º aniversário, brotasse. Me diz? Quanto tempo levou para que eu te escrevesse essa carta, desde que nos conhecemos? É exatamente por isso. Pela quantidade quase incontável de segundos entre o dia que nos conhecemos até o dia de hoje que eu te convido para o nosso próximo encontro.