segunda-feira, 23 de maio de 2011
Segundo dia de ENTRENCONTROS
Há um mês eles se encontraram pela primeira vez. Personagens de lugares diferentes ocupando o espaço vazio do apartamento onde irão morar a partir de agora. Neste segundo encontro chegaram Roberta Savian e Janaína Moreno, duas novas moradoras do apartamento. No decorrer deste dia todos compartilharam um segredo.
















Primeiro dia de ENTRENCONTROS
O que você levaria para um primeiro encontro onde ninguém te conhece? O que poderia traduzir você e te representar neste momento de sua vida?
Neste vídeo, um registro informal do primeiro encontro do projeto ENTRENCONTROS.
BLOG OFICIAL: http://entrencontros.blogspot.com/
Janela Aberta
No primeiro encontro, cada integrante de ENTRENCONTROS levou o que pudesse representá-lo neste momento de sua vida. Eu levei um texto para cada integrante-personagem. Neste vídeo, a figurinista Tati Brescia lê o texto dedicado à ela, JANELA ABERTA.
"Outro dia deixei a porta de casa aberta. Achei que assim a textura do ar modificaria. Meu olhar diante do mundo se ajustaria. E meus dias se transformariam em festa. Com este ar extremamente oxigenado desta cidade ninguém gosta de ficar sozinho. Eu gosto. Mas às vezes não me dou descanso. Insisto vez ou outra em deixar a porta aberta. E eles chegaram. Assim. Sim. Sempre pedindo licença. Sorriso de quem gosta e educação de quem quer ficar. Trocamos as cores da sala. Comentamos sobre as músicas de cada repertório particular. Falamos sobre projetos. Sonhos. Confessamos discretamente, cada um de nós, como é difícil andar nas ruas cheias desta cidade. Ai. Aqui, sentados no chão. Cinzeiros cheios de angústias. Taças cheias de vinho. Amanhecer ao lado de um amigo nunca é tarde demais. Mas com o passar dos dias, aqui, nesta cidade daqui, eu descobri que a porta nunca deve ficar aberta. Não. Sorriso e boa educação não mostram quem é amigo, ou não. Por favor, me escute! A porta deve estar sempre trancada. Para que aqueles, estes do lado de cá, que compartilham os mesmos tons, possam bater assim: devagarzinho. É tão simples. Assim. A porta de casa deve estar sempre trancada. Para que os anjos, ah sim, os anjos, possam entrar pela nossa janela."
Doce e cortante
Primeiro dia de ENTRENCONTROS. Neste vídeo o ator João Gabriel lê o texto "Doce e cortante", escrito por mim há algum tempo.
"Acordei. O espelho novinho em folha da minha cabeceira caiu sobre meu travesseiro. Macio. Lembrei imediatamente de minha amiga Grace Passô. Em seu texto ela conta a história do pé de abacate plantado no quintal de sua casa, e fala de sua vontade de colocar colchões largos em volta do pé para que os abacates caíssem sem medo. Grace queria a natureza mais doce. Um espelho caindo sobre meu travesseiro também “espanca doce” o amanhecer do meu dia. Espelho reflete. Espelho corta. Espelho quebra. Espelho multiplica. Mas nesta manhã ela apenas me acordou. Quarto azul. Rio de Janeiro. Março. Chuva. Frio. Sim, frio no meu quarto do Rio. Depois de tanto tempo: agora estou sozinha aqui. Com este amanhecer bruscamente doce. Peguei super bonder para colar o espelho na parede azul da minha cabeceira. Sexy? Não. Minha intenção é apenas feminina e poética. Preciso olhar atenta para tudo à minha volta no início dos meus quase 29 anos. É sempre um horror usar essa cola contemporânea. De volta à parede, olhei meu rosto inchado no espelho e passei as pontas dos dedos no canto de um sorriso que começava a surgir. Pronto! Meus dedos ficaram presos! Colados! Grudados no meu sorriso. Agora estático. Um sorriso colado. Logo no amanhecer deste dia. Quem me obriga a sorrir? Logo hoje, dia 3 do mês 3. Há um mês meu coração feliz anunciava nada tímido a chegada de um novo amor. Hoje aqui estou. Sozinha. Inteira. Olhando meu sorriso colado na frente do espelho. Levanto da cama com meus dedos ocupados neste lirismo facial. Faria qualquer amigo que costuma acordar comigo, morrer de rir. Mas agora sozinha não tive com quem compartilhar esta minha tentativa inconsciente de ser feliz. Caminho até o banheiro. Água quente para dilatar e aquecer. Quentinho. Isso me lembra alguma coisa. Mas fica para depois. Meus dedos descolados do antigo sorriso me fazem rir da dor. O espelho. O travesseiro. O sono. O espelho poderia ter caído cortante sobre meus sonhos. Alguma coisa me protege. Sempre tive essa certeza. O “espancar doce” deste amanhecer me faz acreditar que tudo está como deveria. Começo o dia com um sorriso colocado no rosto. Água. Nada de maçã! Café bem quente. Acho que agora eu começo a entender como lidar com a queda inevitável do espelho. Deixar cair é a melhor opção. Se a queda será macia. Suave. Cortante. Ah! Isso sim será sempre uma escolha nossa."
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