terça-feira, 28 de abril de 2009

do lado de cá

Mais uma tarde se transformou em madrugada. Último telefonema. Eu me lembro bem. Meus pés estavam sobre o gramado. Eu pisava macio enquanto escutava suas pausas de medo e pura felicidade! Descobríamos naquele momento o amor mais puro. Queríamos abraçar o mundo(!). Lembra? Era mais ou menos assim. Eu sentia e contava os segundos espremidos antes de desligar e anotava apressadamente a data de sua volta. Daqui quinze dias. Dez horas da noite. Aeroporto. Até lá tanta coisa poderia acontecer. Meus pés ainda pisavam o chão macio quando você desligou. Num piscar de olhos as luzes se acenderam. Já era noite. Certamente seus pensamentos estariam entre as nuvens. Sim. Mais uma noite se transformou em madrugada. Sem você aqui desta vez. Registrei versos. Arquivei fotos. Decorei textos. Criei trilhas. Passei parte da noite conhecendo os limites de seu percurso. A lua já mudou de forma. Voltou a ser crescente. Talvez nesta mesma hora você esteja andando por algum lugar da Turquia. Provavelmente quando o sol se pôr e você deitar no travesseiro de Macela, eu estarei lendo alguma coisa sobre Atenas. Antes mesmo de você chegar. E ao final desta madrugada penso: quantas horas faltam para o seu despertar? Impossível saber. Mas ainda assim. Mesmo assim. Eu te desejo bom dia e peço a Deus para te abençoar.

diariamente

terça-feira, 21 de abril de 2009

resposta

Para Flor da Távola.

Quem sabe um telefone com fio? Uma internet banda larga. Um almoço quentinho. Uma boa caminhada? Uma manhã de sol. Abrir a janela antes de mais nada? Uma cama com lençol limpinho. Na rede dormir de tarde. À noite um bom vinho. A companhia dos amigos. Na varanda barulhinho de grilo. Na janela nem um pio! Quem sabe uma longa estrada? Uma passagem para todos os lugares! Fazer revisão no carro. Escutar na rádio sua música preferida? Quem sabe: muitos livros!? Um amor pra toda vida? Quem sabe eu acerte todos os sonhos da minha amiga? Quem sabe eu consiga ficar por perto: de noite, de tarde e de dia? Que a gente continue se encontrando sempre. De quinze em quinze dias!

Lóri.

pergunta

Para Lóri.

"Quero saber, como foi o dia hj?
conseguiu internet, marceneiro, natação, carpinteiro,
um amor, um companheiro, uma luz, um bom chuveiro,
conseguiu advogado pra dizer a todo mundo
que tá tudo muito errado
que o sono da Mariana
merece ter na cama
um carinho ali do lado?"

Flor da Távola.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

não dance sozinho

"Não dance sozinho. Dance com a sua solidão".

Valère Novarina

desato (texto antigo)

Palmas para o olhar acostumado diante do mundo. Levanto-me para aplaudir suas crenças. Seus valores pré-determinados. Não adianta tentar me vender sua felicidade enlatada. Conservada. Apalpada. Aquela que funciona à primeira vista e serve aos comuns. Transbordo-me em querências. Opto pelo simples. Não determino meus desejos. Não escolho por gêneros. Olho pra tudo com a mesma vontade. E não preciso desistir porque meus sonhos não cabem nos seus. Repito. Assino embaixo. Calo-me por não ser mais forte. Mas afirmo em silêncio essa vontade de ser igual pra você, e maior que metade de mim.

Não queria que fosse assim. Minha vida ninguém escolhe pra mim.

terça-feira, 14 de abril de 2009

ainda é cedo amor. . .

Hoje me disseram, e é bem verdade: o pior preconceito que existe é contra você mesmo. Não se falseie. Não se esconda. Não tenha medo de ser o que é. Afinal de contas, estamos sempre em constante transformação! Ainda é tão cedo para saber. .

Hilda Hilst, poemas malditos, gozosos e devotos

"doem-te as veias?
pulsaram porque fizeste
do barro os homens.
E agora dói-te a razão?
se me visses fazer
panelas, cuias.

e depois de prontas
me visses
aquecê-las a um ponto
a um grande fogo
até fazê-las desaparecer.

dirias que sou demente
louca?
Assim fizestes aos homens.

me deste vida e morte
não dói o peito?
Eu preferia
a grande noite negra
a esta luz irracional da vida."

Nina Becker

atravesso a rua para ver Nina Becker cantar. A noite de refaz em sua desapresentação. Talvez por isso, sim, e por tantas outras coisas, penso: vale mesmo viver!


domingo, 12 de abril de 2009

o ator

“Por mais que as cruentas e inglórias batalhas do cotidiano tornem um homem duro e cínico, o suficiente para ele permanecer indiferente às desgraças ou alegrias coletivas, sempre haverá no seu coração, por minúsculo que seja, um recanto suave onde ele guarda ecos dos sons de algum momento de amor que viven na sua vida.

Bentido seja quem souber dirigir-se a esse homem que se deixou endurecer, de forma a atingí-lo no pequeno núcleo macio de sua sensibilidade e por aí despertá-lo, tirá-lo da apatia, essa grotesca forma de auto-destruição que por desencanto ou medo, se sujeita a inquietá-lo e comovê-lo para as lutas comuns da libertação.

Os atores têm esse dom; eles têm o talento de atingir as pessoas nos pontos onde não existem defeses. Os atores, eles, e não os Diretores, e Autores têm esso dom; por isso, o Artista do Teatro é o ATOR.

O público vai ao teatro por causa dos atores. O autor de teatro é bom na medida em que escreve peças que dão margem à grandes interpretações dos atores. Mas o ator tem que se conscientizar de que é um Cristo da Humanidade e que seu talento é muito mais uma condenação do que uma dádiva.

O ator tem que saber que, para ser um Ator de verdade, vai ter que fazer mil e uma renúncias, mil e um sacrificios. É preciso que o ator tenha muita coragem, muita humildade e sobretudo um transbordamento de amor fraterno para abdicar da própria personalidade em favor da personalidade de suas personagens, com a única finalidade de fazer a sociedade entender que o ser humano não tem instintos e sensibilidade padronizados como os hipócritas, como seus códigos de ética pretendem.

Eu amo os atores nas suas alucinantes variações de humor, nas suas crises de euforia ou depressão. Amo o ator no desespero de sua insegurança, quando ele, como viajante solitário, sem a búsola da fé ou da ideoligia, é obrigado a vagar pelos labirintos de sua mente, procurando no seu mais secreto íntimo, afinidades com as distorções de caráter que seu personagem tem. Eu amo muito mais o ator quando, depois de tantos martírios, surge no palco com segurança, emprestando seu corpo, sua voz, sua alma, sua sensibilidade para expor sem nenhuma reserva toda a fragilidade do ser humano reprimido, violentado. Eu amo o ator que se empresta inteiro para expor para a platéia os aleijões da alma humana, cm a única finalidade de que seu público se compreenda, se fortaleça e caminhe no rumo de um mundo melhor que tem que ser construído pela harmonia e pelo amor. Eu amo os atores que sabem que a única recompensa que podem ter, não é o dinheiro, não são os aplausos, é a esperança de poder rir todos os risos e chorar todos os prantos. Eu amo os atores que sabem que no palco cada palavra e cada gesto são efêmeros e que nada registra nem documenta sua grandeza. Amo os atores e por eles amo o teatro e sei que é por eles que o teatro é eterno e que jamais será superado por qualquer arte que tenha que se valer da técnica mecânica. “

Plínio Marco – 1986
Canções e reflexos de um palhaço.