Tiradentes. Janeiro de 2003. Chuva. Sempre chove em dias especiais.Déborah, amiga de infância, estava sentada num banquinho de madeira de um daqueles bares que contornam a praça principal de Tiradentes. Contava histórias engraçadas sobre sua vida em Juiz de Fora e descrevia com detalhes uma grande amiga, que mais tarde, iria me apresentar. Entusiasmada, declarava em voz mansa: “ela se parece tanto com você. Gosta de literatura, teatro, cinema e cores!”. Naquela época compartilhávamos tudo: viagens. Histórias. Descobertas. Sonhos. Amigos. Amores.
O entardecer ainda estava longe, mas a chuva fez Tiradentes anoitecer mais cedo naquele dia. Para quem não sabe, há mais de dez anos Tiradentes recebe no mês de Janeiro pessoas de todos os lugares do Brasil e do mundo para a Mostra de Cinema. Era o meu primeiro ano na cidade histórica que então virava cenário dos momentos mais lindos do início da minha juventude.
Anoiteceu. Já eram mais ou menos nove horas da noite. Tenda Principal lotada. Pré-estréia do filme de Débora Falabella. Chuva. Frio. Mais chuva. Não cheguei a tempo para o filme. Parei para tomar um suco, ou uma cerveja, não me lembro muito bem e isso eu deixo à escolha de sua imaginação, querido leitor. Embora o bar, sim, eu ainda consiga descrever com detalhes: barulho. Comidas gostosas. Muitas pessoas sentadas conversando. Jovens entrando e saindo a todo momento. Nenhuma mesa vazia. O balcão ficava à esquerda do bar. Foi ali que pedi a bebida. Cerveja? Pode ser que sim. Naquela época eu gostava de cerveja. O balcão fazia um L e o barman que então me atendia desviou sua atenção. Do lado de lá uma menina, sim, uma menina, de cachos vermelhos, pedia, [aí sim eu me lembro bem], uma cerveja! Curioso perceber, hoje, o que era fácil para os mais atentos naquele bar, que o rapaz ficou ali, atrás do balcão, parado com a bebida nas mãos enquanto aquela menina de flores nos cabelos encaracolados e blusa verde musgo, sorria para o lado de cá do balcão. Era como se o tempo tivesse parado naquele instante.
Foi a primeira vez que uma menina sorriu para mim. Eu? Retribui imediatamente e quase simultaneamente o sorriso. Era Roberta. Aaah, quem a conhece, sabe. Impossível não sorrir para ela.
A sessão acabou. Fui encontrar Déborah, minha amiga de infância do início desta história, e toda a turma na Tenda Principal. Queria contar que as cores daquele bar haviam mudado. Queria saber do filme e o que aconteceria no decorrer daquela noite encantadoramente chuvosa. Amigos reunidos. Déborah iria apresentar a todos, a personagem principal de suas histórias de Juiz de Fora. Incrível perceber que os encontros que acontecem em nossas vidas nos fazem sorrir de graça e até mesmo fora de hora. A amiga tão querida de Déborah, era Beta, a menina que me sorriu do lado de lá do balcão.
Foi assim que nossa história começou. Ríamos disso sempre que nos encontrávamos. O sorriso. O olhar. A blusa verde. Tiradentes. E todos os anos que estariam por vir. As histórias? Continuaram. Déborah contava as suas. Beta, descrevia em forma de crônicas e poesia tudo o que ela secretamente escrevia. Não me esqueço. No meio da noite. Em qualquer lugar. Ela contava histórias. Eu perguntava: -“quando isso aconteceu?” e ela me respondia: -“não aconteceu, eu escrevi!”.
Pelo sorriso. Pelas histórias. Hoje eu escrevo [registro] o início de nossa história. Para ela.
3 comentários:
Lindo, Mari! Foi assim mesmo que aconteceu. E você escreve tão bem. Ficou singelo.
Li sim, pq não!!? Que lindas imagens vc possibilita a seus leitores durante o primeiro cruzar de olhos entre vc e a Beta. É claro que estava lá nesse contexto, mas independente disso me encantei com a possibilidade de reviver e sentir novamente a sensação no corpo de estar em Tiradentes. Presenciei no pensamento, na alma, no astral, na linha do horizonte e no infinito esse efêmero, mas eterno encontro.
Lindo, Marilu, lindo e leve. Como vc! Me encanto e me "reapaixono" por vc a cada dia.
Saudades e até breve. Um bjo doce!
moça borboleta,tentei ler esse texto várias vezes e apenas hoje consegui... vi e senti cada detalhe da cena... o jeito moleca da beta pedindo a cerveja, com o sorriso raíz-antena-galenteador (risos)... ai meu deus! coragem no amor pro ela! que só nele, em muitos momentos,consigo suportar a dor da ausência...beijos
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