terça-feira, 15 de julho de 2008

avesso

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troco os horários. escolho o contrário da via.
acordo antes da hora. não suporto a realidade.
me viro. troco meus sonhos pelo sono.
adormeço assim. pelo avesso me despeço de mim.

na hora de chegar, saio.
quando todos buscam o ar da madrugada, durmo.
trabalho durante o dia de sol. não leio as bulas dos remédios.
submeto-me. transformo. transgrido. fico quieta.
nesse paradoxo há muito e nada de mim.
grito. sempre em silêncio.

às vezes troco a noite pela tarde.
estudo olhando para o céu.
vejo o mundo olhando para dentro de mim.
esqueci-me das regras. funciono apenas com horários
para que eu possa enfrentar. cumprir. me desorganizar.

sigo pelo lado contrário da via.
faço um desenho com minha história.
cumpro meus anos de acordo com a pulsação da ordem
do olhar
diante do mundo.
troco meus horários. confundo meu coração.
amo quem eu jamais deveria escutar.
misturo meus verbos, meu quero e minha invenção.
aprendo com os anos, com saltos e minha dispersão.
entendo com a dor. com a cor. e com minha paixão.

durmo com a pulsação da música lá fora.
escureço o quarto, a ação, e aqui dentro
dentro de mim
e do avesso do desejo
do meu coração.
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