quarta-feira, 3 de março de 2010
doce e cortante
Acordei. O espelho novinho em folha da minha cabeceira caiu sobre meu travesseiro. Macio. Lembrei imediatamente de minha amiga Grace Passô. Em seu texto ela conta a história do pé de abacate plantado no quintal de sua casa, e fala de sua vontade de colocar colchões largos em volta do pé para que os abacates caíssem sem medo. Grace queria a natureza mais doce. Um espelho caindo sobre meu travesseiro também “espanca doce” o amanhecer do meu dia. Espelho reflete. Espelho corta. Espelho quebra. Espelho multiplica. Mas nesta manhã ela apenas me acordou. Quarto azul. Rio de Janeiro. Março. Chuva. Frio. Sim, frio no meu quarto do Rio. Depois de tanto tempo: agora estou sozinha aqui. Com este amanhecer bruscamente doce. Peguei super bonder para colar o espelho na parede azul da minha cabeceira. Sexy? Não. Minha intenção é apenas feminina e poética. Preciso olhar atenta para tudo à minha volta no início dos meus quase 29 anos. É sempre um horror usar essa cola contemporânea. De volta à parede, olhei meu rosto inchado no espelho e passei as pontas dos dedos no canto de um sorriso que começava a surgir. Pronto! Meus dedos ficaram presos! Colados! Grudados no meu sorriso. Agora estático. Um sorriso colado. Logo no amanhecer deste dia. Quem me obriga a sorrir? Logo hoje, dia 3 do mês 3. Há um mês meu coração feliz anunciava nada tímido a chegada de um novo amor. Hoje aqui estou. Sozinha. Inteira. Olhando meu sorriso colado na frente do espelho. Levanto da cama com meus dedos ocupados neste lirismo facial. Faria qualquer amigo que costuma acordar comigo, morrer de rir. Mas agora sozinha não tive com quem compartilhar esta minha tentativa inconsciente de ser feliz. Caminho até o banheiro. Água quente para dilatar e aquecer. Quentinho. Isso me lembra alguma coisa. Mas fica para depois. Meus dedos descolados do antigo sorriso me fazem rir da dor. O espelho. O travesseiro. O sono. O espelho poderia ter caído cortante sobre meus sonhos. Alguma coisa me protege. Sempre tive essa certeza. O “espancar doce” deste amanhecer me faz acreditar que tudo está como deveria. Começo o dia com um sorriso colocado no rosto. Água. Nada de maçã! Café bem quente. Acho que agora eu começo a entender como lidar com a queda inevitável do espelho. Deixar cair é a melhor opção. Se a queda será macia. Suave. Cortante. Ah! Isso sim será sempre uma escolha nossa.
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14 comentários:
Que lindo, Mari! Temos que utilizar as leis da física em nosso favor!
Que delicia de texto deslisante.
Me deixou doce....obrigado.
Lindo.. de colar o coração... bjs!
Meu Deus! Será que é muita loucura rir e falar loucamente sozinho em frente ao computador? Pois essa foi minha minha reação ao ler esse seu texto/depoimento, real e completamente cênico. Um misto de preocupação com certeza de estar tudo bem, com a sensação de poesia e comicidade simultaneamente.
Genial....
Um relato, uma cena, a ação do inconciente. A resposta sobre as questões que tumultuaram o dia anterior. Gosto disso! Da possibilidade que a Vida tem de nos ensinar!
Uma reliquia.
Bom texto Marilu!
Bjos com saudades já tb!
Amorrrrrrrrrr...que lindo. Amo a forma poética que escreve. Já pensou em entrar num edital desses? Num concursso de poesias, contos , crônicas? Rola uma grana e você publica seu primeiro livro, minha Clarice.
Vontade de estar aí com você para rir desse sorriso colado. Adoooooooooooro!!!!
Beijos intermináveis. Te amo.
Amiga linda e amada!!! Tb queria demais ver seu sorriso colado...mas sobretudo, desejo que muitos sorrisos sejam colados ao seu coração, para sempre!! Te amo!! Bjo gigante!!! Ana Lu
lindas palavras, sempre venho aqui e observo quietinha. São textos tão lindos, leves e de uma delicadeza, que hoje eu não consegui resisti.
Parabéns.
beijos
Máaa! Adorei!
Obrigada por dividir esse acontecimento engraçado, hehehe! E o texto é lindo!
Te amo!!
Má.
Mari! Minha cara,
Pois eu achei tão bonito teu texto. E fiquei toda feliz quando me li lá, que alegria que fiquei.
O espelho, o travesseiro e o sono. Tudo coisa pra sonhar.
Um beijo escrito: Beijo!
Oiiii Marizinha!!!!!
Seu aniversário passou e eu nem falei com vc! Foi dia 11? Ai, Mari, ficar distante é tão ruim. Pq eu sou meio desnaturada e sempre tô na pindaíba. rs.
E eu que tentei te ligar no final de semana. Acho que foi no domingo, que vc teve aqui. Liguei na sua casa. Ninguém atendeu. Nem no telefone da sua mãe.
Tô com muita saudade. Seu texto está lindo e me faz sentir mais saudades.
Beijos da Lelé desnaturada
Tão lindo, Mariana....
A sorte, alegria e talento sempre te acompanharam.
Graças a Deus.
Te amo.
Bjs.
Mãe.
E que novo amor, gente???
Engraçado, ao te ler me senti como da primeira vez em que li Grace, antes mesmo do Espanca! Sensação da água fria.
Adoro! Essa maturidade não doce, mas agridoce. Aguda. Me encantou o sorriso colado. Sou fã de metáforas. Gostaria de te ler mais.
Oi linda! Que boas imagens, isso do sorriso colado com superbonder e voce extrair um potencial filosofico disso e muito bonito.
Beijos do mesmo pais que voce, sem oceanos no meio!
Gi.
Olhei minha imagem no espelho essa manhã com um travesseiro na mão. Estava a espera que ele saltasse. Não é assim que funciona? O espelho não é o nosso reflexo?
Eu queria pular da parede e cair macio na minha mão. Mas somente enxerguei a minha natureza que era doce.
Nessa manhã esse espelho deixou de me refletir e virou caminho para que eu e minha natureza se aproximasse, e estranhamente estava próximo de ti.
Eu acho que quando muitos encontram a doçura cortante de um espelho que não quebra percebem que a essência do que se reflete é a mesma. Daí somos uno.
Mas esse olhar parte somente da nossa escolha. Essa manhã eu escolhi matar saudade de você...
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