Ela gostava de andar com os pés descalços. Tocar gaita. Ok! Confesso, ainda estava aprendendo. Ouvir LPs em sua vitrola antiga, que tinha acabado de comprar. Tomar sorvete de vez em quando. Dormir com a janela aberta. Nadar escutando música. Rezar dentro da água do mar. Andar sem se arrumar. Era desatenta muitas, inúmeras vezes. Mas dirigia como ninguém! Dormia tarde. E adorava ver o tempo passar devagar.
Mas para chegar a este ponto, de viver assim. Levou tempo. Tempo. Muito tempo. Quase 29 anos. E como era prazeroso soletrar seus vinte e nove anos.
Você já a conhece um pouquinho. E conhecendo assim, pode até tentar adivinhar o que vem a seguir. Ela demorou para construir sua história desta maneira. Sossegada. Inteira. E às vezes muito pela metade.
Era noite. Tinha acabado de pintar a parede de sua sala de vermelho intenso. Tinha sujado todo o chão branco da sala. O relógio em cima do balcão revelava poucos minutos para às dez da noite. Alguém toca a campanhia. Sua melhor amiga entra. O ano começava novinho em folha. Uma agenda nova e uma foto. Presente dela. O telefone toca. Convite para uma festa. Pés descalços. Mãos vermelhas de tinta. Malas prontas para viajar cedo. Estrada. Carro. Nada disso combina com festa. Mas ela foi. Acompanhada pela amiga.
Parece que o destino marca alguns compromissos fora de hora em nossas vidas. Uma festa inesperada. Ônibus atrasado. Chuva no meio da madrugada. Qualquer coisa que não seja programada ou pré estabelecida por nossas idéias - Aaah! Idéias - de querer sempre estabelecer o que está por vir.
Ela estava na festa. Sem muito saber o por que de estar ali. Conhecia novas pessoas. Ainda não tinha feito um ano sequer que ela morava naquela cidade grande de litoral. Era uma noite agitada. Festa. Música. Fotos. Muitas fotos. Perucas coloridas. Bebidas. Pouca luz. Ela? Sossegada. Não olhava muito ao redor. Observava de mansinho o desenho das histórias de quem estava sentado com ela, ali, na mesa. Mas, como é mesmo? Não programamos muito o que está por vir:
Uma revelação da amiga faz com que ela olhe para o lado. Ao desviar sua atenção. Ai. Sua atenção. Era como se seus olhos descobrissem uma nova forma de se relacionar com tudo à sua volta.
Sim. Ela gostava de andar com os pés descalços e tocar gaita. O que você não sabe é que naquela noite sua vida mudou. O motivo eu ainda não posso revelar aqui. Mas se você já a conhece um pouquinho, talvez possa ajudar. Ela anda procurando uma nova cor para pintar a parede de sua sala. Quer descobrir o que desmancha palavras escritas com lápis de cor no teto. O que faz para desaprender a fumar. (Ela fumava?) Talvez, você, caro leitor. Possa ajudá-la. Ela anda procurando como se faz para esquecer letras de músicas que sabe de cor. Quer conhecer novos discos de vinil. Quer tocar ne me quitte pas na gaita. E como apaga uma imagem refletida no espelho. O que aconteceu com ela nesta festa!? Nossa! Ela ainda não me deixou escrever. Sou apenas observador de sua história. Por isso venho intervir! Me ajude, leitor! Você é parceiro de minhas escritas e já sabe a cor preferida dela. Talvez assim você consiga desvendar este mistério. Tirá-la um pouco de casa. Deixar as ondas do mar um pouco mais suaves. Inventar novas canções para cantar de cor. E sim, descobrir como apagar as palavras de amor da parede de sua casa....
4 comentários:
Ela percebeu seu olhar perdido, que olhava para tudo e não enxergava a festa, as pessoas, alguém que não ouvia a música, pois sua canção interna a fazia se perder em sua própria dança.
Viu, naquele momento, que era ela ali, naquela festa, mas parecia alguém bem diferente daquela menina sorride que sempre enchia de alegria e luz os ambientes. Aquela menina havia se perdido anos atrás, entre muitos caminhos e muitas histórias da vida
Via-se, era ela. Mas perdida em seus pesadelos vivos que a impediam de enxergar as coisas mais simples, as pessoas mais bonitas, suas vozes, seus cheiros, o que faziam ali na sua vida. As vozes daquela pessoa tão desconhecida para ela mesma, berrava em sua mente e impossibilitavam de comungar ou percepção que nada daquilo fazia parte de seus íntimos desejos. Aqueles que nem ela mesma queria conhecer.
APG
Ah pinta outra parede de uma cor oposta. Não tem necessidade de apagar essa, vermelho é um cor legal! E se você quiser até te ajudo a pintar. Você pode pintar o teto tb, que tal encher de estrelas? Todo dia você pode fazer algo que nunca fez, tipo comer alguma coisa diferente que nunca provou, fazer coisas estranhas tipo idéias flanantes... e por que não?
Álbum novo de Caetano, outro dele antigo para vitrola. Música de Gadú para lembrar e esquecer; e voar, ela pode aprender a voar..
Ainda dançando perdida em sentimento agridoces, não viu, não sentiu, não fluiu...
Se perdeu entre desejos e sonhos. Não pôs seus pés descanços no chão e sentiu a terra molhada... estava ali, no meio da dança perdida, no salão, todos os olhos em sua direção. Linda menina, divinamente mulher, baton vermelho, coração sangrando.
... pele a arrepiar, cheiros a inspirar, beijos a sufocar, dedos a entrelaçar, amor daqueles que faz suar...
APG
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