terça-feira, 27 de abril de 2010

da minha janela

Quando eu era pequena eu via a morte passando pela minha janela. A morte nunca era do meu tamanho. Talvez por isso ela nunca tenha se aproximado naquela época. Ela sempre visitava as casas que ficavam ao lado da minha. Eu via as janelas vizinhas se fechando cada vez que ela chegava. A dor era sempre do outro. Não minha. Eu, com os pés pequenos, olhava para cima e via minha mãe. De cabelos longos, maiores dos que de agora. Sorriso laaargo. A felicidade fazia fartura no seu corpo. Ao lado dela, mulheres de cabelos acinzentados e de sorrisos mais desconfiados. Eu fazia as contas e tinha toda a certeza do mundo: se a morte seguisse a risca a ordem cronológica do tempo, ela demoraria para chegar. Para minha mãe. E quem sabe? Para mim, criança pequena, que já tinha medo do fim.

Hoje vejo que a morte está à nossa frente. Ela é como um espelho. Se você olha fundo dentro dele. Dentro dos seus próprios olhos, verá o medo de não mais existir. E quando você não conseguir mais enxergar seu reflexo, é porque a morte já aconteceu. Sim, de alguma forma ela já aconteceu.

4 comentários:

Anônimo disse...

Posso colocar minha janela ao lado da sua? Do seu lado não vou sentir dor, quero ficar só ao seu lado agora.

Ana Torre disse...

Só ela sabe como é a respiração de dentro do espelho.

Lectorium Rosicrucianum Brasil disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

Gosto do texto, do tom. Do tamanho da morte. Da infância. Boa sorte na sua pesquisa, quero ver a cena... até o CENAS CURTAS!