Ela chegou em casa, tirou os sapatos e correu para o chuveiro. Deixou a água molhar com agressividade todo o seu corpo. Estava calma. Serena. A água escorria sobre sua cabeça, seus olhos, suas costas. Acabara de receber a notícia. Ele havia se casado. Assim, como num passe de mágicas. E o susto: ela não sentia dor. Deixou a água invadir cada pedaço do seu corpo nu tão intocado nos últimos tempos. Estava sozinha havia... quanto tempo, mesmo? Não sei o motivo, mas fizera essa opção! Fizera? Parece que sim porque uma mulher jovem como ela, linda, não poderia ficar sozinha aos 29 anos. - "Não, não poderia." Todos pensavam! Mas estava sozinha. Seu único prazer diário era deixar a água escorrer por todo o seu corpo. Ela já não sentia dor com todas as despedidas de seus amores. Antigos? O mais recente e forte de todos havia mandado notícias de que não queria notícias. Dela. Meu Deus! Um amor recusando amor! Era mais ou menos assim que a liberdade se mostrava presente. De mansinho. O primeiro de todos os amores havia se casado já há alguns anos. Em Paris. Fizera 30 anos no penúltimo dia do mês de setembro de nem atendera ao telefone. A liberdade de novo permeava docemente seu presente, (re)significando todos os seus amores. Aquele outro que ela já nem se lembrava mais também havia se casado! - "Então, espere!" Pensou. -"Todos os meus antigos amores já se casaram." Sim. Mas nada disso doía. Mais. Ela apenas continuava sentindo sua solidão debaixo do chuveiro. Nada mais no mundo fazia doer. Ela estava sozinha e não sentia saudades. Fechou a torneira. Deixou a toalha roubar todas as gotas que contornavam seu corpo. Foi para a janela. Qualquer choque térmico a deixaria mais viva. O chuveiro não parava de pingar. Insistente. Água. Calor. Barulho. Incômodo. Parecia que aquele prazer insistia em não deixá-la ir embora. Ela mencionou com o corpo deixar a vista da janela e voltar para o chuveiro. Mas não queria. Não desta vez. Agora ela estava livre para qualquer possibilidade de se encontrar inteira diante da vida.
A água continou escorrendo...
Um comentário:
Escutei o barulho do chuveiro. Amores passam. Ficam e passam.
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